“Tem muito mais empresário rico honesto do que empresário rico desonesto”

O mega empresário Roberto Justus em entrevista exclusiva para Evoke fala sobre qualidades para empreender

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Basilia Rodrigues
Economia, Entrevistas, Notícias
11/09/17 10:07

Publicitário, apresentador de TV, visionário, agregador, Roberto Justus explica nesta entrevista exclusiva para Evoke que pra alcançar a riqueza é preciso ter ética, auto estima, boas ideias e honestidade no currículo.

REVISTA EVOKE: Quais qualidades um homem de negócio bem sucedido deve reunir?

ROBERTO JUSTUS: O número de empresários bem sucedidos é muito menor do que aqueles que não conseguem chegar lá. Algumas características são importantes. Começa assim: o homem de negócio bem sucedido enxerga algo que os outros não estão enxergando. Ele tem uma visão privilegiada, é um grande visionário. A segunda característica é a sua força de vontade, a sua determinação, o quanto tem de capacidade pra realizar. Porque um grande homem de negócio não sucumbe às primeiras dificuldades. No início, há dificuldade de se estabelecer, falta de capital, problemas no cenário econômico ou do mercado em que se está atuando… Essa determinação vai fazer com que você siga adiante e vá em busca do seu objetivo, do que a sua visão te indicou. Líderes são pessoas com capacidade de gestão, tem boa auto estima, confiam naquilo que fazem, sabem inspirar pessoas e montar equipes. Você não consegue realizar nada sozinho, então tem que ter segurança em si mesmo pra trazer ao seu lado pessoas que sejam tão boas ou até melhor que você. David Ogilvy, um grande publicitário, dizia “contrate pessoas tão boas ou melhores que você, que você terá uma organização de gigantes”.

REVISTA EVOKE: Diante do agravamento da crise política e econômica no país, na sua avaliação, como o empreendedor consegue sobreviver?

ROBERTO JUSTUS: O Brasil é um país que repele em vez de atrair os investidores, primeiro pagando juros muito altos. Então, pra se ter um bom negócio, as suas margens têm que ser muito altas pra compensar o seu capital sendo investido na produção e não deixar parado no banco rendendo juros. Um ambiente em que os juros são altos é permissivo em dois aspectos: 1) Porque você pensa “vou correr esse risco?”. 2) Impede que as empresas consigam se endividar para fazer investimentos.

Por isso que falam tanto que as quedas de juros vão acabar estimulando a economia. Eu sempre brinco que (a palavra) “crise” tem que se tirar o “s” e virar “crie”. Crie oportunidade para você mesmo, tente buscar investir em setores que possa trazer boas oportunidades. Nada é tão ruim que dure eternamente, nem no Brasil, em que estamos vivendo a tempestade perfeita de crise política, institucional e econômica ao mesmo tempo. Isso é uma raridade no mundo. Qualquer país passa por uma dessas situações mas as três ao mesmo tempo é de uma “criatividade” que só o brasileiro tem, infelizmente. Num ambiente como esse, é mais difícil mas temos que ter força de vontade de tentar buscar oportunidades dentro da crise. E elas existem.

REVISTA EVOKE: Não ser pessimista também, né?

ROBERTO JUSTUS: Eu sou um eterno otimista. Uma outra qualidade de líderes é que eles sempre conseguem ver o copo meio cheio e não meio vazio. Tudo é fluxo e refluxo. Não existe nada que dure eternamente bem, nem eternamente mal. Pode durar um pouco mais de tempo do que se imaginava, tem que considerar isso no planejamento, mas uma hora a coisa volta. Se souber não recuar demais, não enfiar a cabeça na terra como um avestruz, você é capaz de se dar bem. Pensamento positivo é algo que tem que acompanhar um homem ou uma mulher no mundo dos negócios ou no mundo pessoal porque é totalmente proporcional à felicidade que você vai gerar na sua vida. É você pensar positivamente.

REVISTA EVOKE: Para muitos empresários, Roberto Justus é sinônimo de liderança e muitos querem seguir o mesmo caminho. Por onde você trilhou? Depois de tudo que viveu, ainda há desafios não superados?

ROBERTO JUSTUS: Desde muito jovem, eu sempre quis fazer algo marcante na minha vida, eu não quis só passar (por ela). A vida é uma só. Eu adoro a frase: “A felicidade é uma viagem e não um destino”. Você tem que ser feliz durante o processo. Eu só acredito em negócios e vida bem sucedida quando há felicidade por trás. Se você ama o que faz, você tem muito mais chance de ser feliz do que alguém que faz por obrigação. Eu sempre fui assim de olhar as coisas de um jeito que me fizessem feliz. A palavra”desapego” é boa. Se eu vejo que não está funcionando, se eu vejo que não vai (pra frente), eu consigo jogar para “lucros e perdas” e olhar pra frente. Com essa vontade, essa determinação, essa curiosidade extrema que eu sempre tive desde jovem. Eu sempre falo que é preciso construir repertório na vida. Você vai levar com você o conhecimento. Dinheiro vai, dinheiro vem, as realizações acontecem, mas o que sobra dentro de você é o seu conhecimento: falar mais línguas, tentar crescer…

REVISTA EVOKE: E depois que você chega a um ponto, ainda tem desafio?

ROBERTO JUSTUS: Então, aos 48 anos – ou seja há 14 anos – eu assumi um novo desafio na vida: ser apresentador de TV. No primeiro programa “O Aprendiz”, eu tinha que desafiar pessoas numa sala de negócios. Mas peguei o gosto por proporcionar entretenimento de qualidade para as pessoas. Eu fazia os intervalos (como publicitário) e passei a fazer o conteúdo (como apresentador) de televisão. Esse era um grande desafio e continua sendo. É o que me motiva. Eu vendi meu grupo de publicidade em dezembro de 2015, continuo como “chairman” – um pouco rainha da Inglaterra – sem me envolver no dia-a-dia. Realizei meu patrimônio depois de 35 anos de atividade. E a pedido dos sócios que compraram minha parte, eu fiquei por um período mais, meio que de “fadeout”, mas me concentrando mais na minha vida artística. Eu vejo o Silvio Santos com 85 anos e ainda ativo, acho que eu talvez tenha bastante tempo para desenvolver minha carreira dentro da televisão. Esse é o meu desafio do momento.

REVISTA EVOKE: Você partiu pra outro desafio depois de ter uma carreira consolidada na publicidade. Como tem administrado isso?

ROBERTO JUSTUS: Foram dez temporadas do Aprendiz, das quais eu fiz oito. Então, metade da minha carreira de televisão foi “O Aprendiz”. E a outra metade foram outros programas. Hoje eu tenho dois realities importantes da emissora, o “Powercouple” e “A Fazenda”. Claro que eu sou um homem de negócio, tenho os meus investimentos, continuo como “chairman” do maior grupo de publicidade do Brasil, mas montei meu escritório de negócios, criei um fundo imobiliário, sou sócio de uma clínica médica popular, investi em mais alguns negócios para não ficar dependendo só de televisão. Tem profissionais tocando cada um desses negócios e eu fico mais de investidor.

REVISTA EVOKE: Falando do noticiário do momento, nunca se viu no país tantos dirigentes, executivos de sucesso sendo incriminados como agora. Em que medida ter um negócio lucrativo passa pelas questões éticas? É possível ser rico e honesto?

ROBERTO JUSTUS: Vamos separar o joio do trigo, isso é muito importante. Tem muito mais empresário rico honesto do que empresário rico desonesto. Não podemos olhar só para as exceções. Quantos empresários estão presos? E quantos empresários existem (no país todo)? Concordo também que muitos (empresários) que estão do lado de fora deveriam estar presos. Mas primeiro que quem está nessas coisas desonestas se envolveu em negócios com o governo. As coisas ficaram sujas na relação entre empresas, partidos políticos e governos tanto federal, estadual quanto municipal. Então no Brasil, criou-se uma epidemia de corrupção violenta, talvez sem precedentes no mundo. Isso se tornou uma doença, da qual estamos tentando nos curar. O que não dá pra fazer é generalizar.

Eu não fiquei bilionário nem nada, mas fiquei muito bem de vida, e nunca tive que fazer nenhum tipo de desonestidade. Você não vê escândalo de corrupção com Bill Gates, Jorge Paulo Lemann… Claro que pode ter algum mal feitor nas empresas, mas é uma rara exceção dentro dos negócios. Não pode ser uma coisa comum como era nessas empresas (que se envolveram na Lava Jato), que estamos descobrindo que cresceram dentro da corrupção, corrompendo agentes públicos. É um grande exemplo de como não agir. Eu duvido que esses empresários não estejam arrependidos neste momento.

Não tem dinheiro no mundo que, pra mim, compense eu não deitar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilo, jamais! Você ter esse receio de ser afastado da família, ser execrado pela sociedade. Do que adianta ter milhões ou bilhões e não poder jantar num restaurante por ter vergonha, deixar teu filho na escola sofrer bulling porque você estava agindo de forma irregular. Estão pagando o preço, independentemente de quanto tempo estão na cadeia ou não, ou fazendo acordos de delação premiada ou de leniência… No Brasil, finalmente conseguimos puxar esse fio e descobrir muita coisa que muita gente já sabia mas não tinha interesse em revelar. A ajuda da imprensa é fantástica. Tudo o que está acontecendo pode trazer um novo país para todos nós. Mas é muito pesado perguntar se dá pra ficar rico sendo honesto. Lógico que dá pra ficar! Você pode ficar muito rico ou ficar menos rico pagando impostos.

REVISTA EVOKE: Você é a favor da reforma da Previdência e trabalhista?

ROBERTO JUSTUS: O Brasil tem uma lei trabalhista arcaica que é uma faca na cabeça do empresário. Estados Unidos não têm lei trabalhista e gera muito mais emprego do que nós. É tudo livre negociação. Acho pouco o que vai ser feito na reforma trabalhista mas já vai ser bom para gerar novos empregos. A reforma da Previdência, o teto de gastos… e vem aí 2018, se vier um novo candidato, que tenha essa mentalidade e preparo para mudar as coisas, tem uma chance para o Brasil se recuperar.

REVISTA EVOKE: Você descarta ser candidato à presidência da república em 2018 ou continua pensando nisso?

ROBERTO JUSTUS: Eu descarto totalmente. A uma certa altura, eu admiti essa possibilidade porque acho que é a hora do “outsider” (pessoas que estão fora da política mas podem se candidatar). Mas é muito difícil uma pessoa com o meu perfil orbitar nesse cenário. Eu sou um sincericida por natureza, transparente demais. Para começar uma candidatura, já teria que ceder a um monte de coisa, seria impossível para o meu jeito de pensar, seria ceder para partidos políticos algum interesse futuro. Eu sonharia que o Brasil tivesse na presidência um gestor brilhante que pudesse colocar nos ministérios técnicos capacidados, reduzir o número de ministérios pela metade, deixar o governo cuidar apenas de saúde, educação, segurança pública, saneamento básico… das necessidades básicas da população e deixar todo resto nas mãos da iniciativa privada. Cortar tudo, acabar com essa corrupção, diminuir o número de funcionários públicos, cortar gastos desnecessários… Tudo isso é impossível de fazer no Brasil. Por isso, como eu vou me candidatar? Eu penso radicalmente assim.

REVISTA EVOKE: Pra aliviar um pouco o rumo da nossa conversa, quero falar do bordão pelo qual você é muito conhecido até hoje: “você está demitido”. Em que situações você ainda costuma se deparar com essa frase?

ROBERTO JUSTUS: Uma vez eu entrei em um avião errado e as pessoas me demitiram brincando. As pessoas pedem para eu demitir as outras. Já me pediram “demite meu primo porque ele não conseguiu passar num curso” e eu faço um vídeo brincando dizendo que fulano está demitido. Me mandam comentários no twitter, no instagram… Na época (do impeachment), eu recebia “demite a Dilma”, “demite os políticos”, “demite todo mundo e assume esse país”. Isso acontece bastante e eu vejo com bons olhos porque esse é o fruto de um trabalho muito bem feito que tantos anos depois ainda se sustenta. Virou uma forma de protesto divertido. Então, “se você é um incompetente, o Justus vai te demitir, toma cuidado”. É engraçado.

 

 

Por Basília Rodrigues

 

Revista Evoke

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