Pretos do Poder

No Brasil, os negros são maioria. Mas você já parou para pensar onde eles estão?

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Basilia Rodrigues
Lifestyle, Tonalidade
10/01/20 15:36

Um aluno de 15 anos que cursa o ensino médio em Várzea da Roça, na Bahia, entrou em contato pra dizer que leu uma crônica minha sobre racismo. “Pesquisei no Google e me encantei com essa”, disse ele.

“Negro, Moreno, Branco: crônica contra o preconceito” foi publicada em janeiro de 2018, na EVOKE. O texto sobre cores de pele e a relação com o preconceito serviu de inspiração para esse aluno escrever uma peça, como parte dos trabalhos da disciplina de Português, em sua escola pública.

Ainda bem que esse texto o encontrou. Obrigada, internet. Com a autorização para usar a crônica, ele me encaminhou o vídeo da história que contou depois. A encenação era sobre um homem simples negro que é expulso de um restaurante, depois de ser mal atendido. Mas que surge novamente, tempos depois, com a mesma cara e cor – porém, rico. Ele dá uma lição de moral nos funcionários do restaurante. Detalhe: nas duas ocasiões, ele é atendido pelos mesmos funcionários, negros como ele. Mas o tratamento muda, como se o poder estivesse na carteira e não nas palavras daquele jovem negro que só queria ser respeitado.

A discriminação racial está intrinsecamente ligada à questão econômica. Ao quanto vale financeiramente, ao quanto pode pagar. Explico. Negros ricos e de classe média sofrem racismo também, claro. Como explico no texto que chamou a atenção do estudante, da Bahia, não há pessoas mais ou menos negras (morenos, vocês também são negros, ok?). Ou se é negro ou não é. Só que, a relação com o que há no bolso faz com que pessoas negras minimamente abastadas consigam ou tenham ferramentas para conseguir driblar o preconceito. Essas pessoas, quase sempre, estão do lado do balcão que pede e não o que serve. Já os negros pobres parecem tocar uma só nota porque convivem mais com o racismo naturalizado. São inferiorizados em vários aspectos e com mais frequência.

 

Jornal Corriere dello Sport – Itália

 

Aconteceu um dia desses na vida real. Em Goiás, um homem mandou o encarregado de obras embora porque “não quero preto na minha obra”, disse ele. A defesa alegou que ele não seria racista porque é casado com uma mulher negra. Não colou e a justiça condenou. Em Belo Horizonte, após ser questionada por um taxista se precisava de uma corrida, uma mulher respondeu que “não andava com negros” e que era “racista mesmo” quando confrontada pela afirmação. Ela foi presa. A família dela pediu desculpas e contou que a mulher tem problemas psiquiátricos. Em Roma, um jornal aproveitou a péssima fase de dois jogadores de futebol negros para dizer, em tom de chacota, que se tratava de uma “black friday”, colocando-os na prateleira do mundo da bola como itens em promoção, um produto negro e barato já que o rendimento caiu.

Na história contada pelo aluno na escola, o negro humilhado no passado compra o restaurante no futuro. Mas esse enredo, quase que dos sonhos, parece não passar disso. No Brasil, os negros são maioria. Mas você já parou para pensar onde eles estão? Eles enchem as estatísticas mas estão invisíveis, ou não existem, em muitos espaços.

 

 

Revista Evoke

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