O outro lado da maconha

Todo remédio também é uma droga, algumas fazem bem, outras destroem a vida de uma pessoa. A ciência descobriu que a maconha pode ser utilizada em prol da saúde. Mas como?

Estevan Furtado
Bem Estar, Saúde
22/07/19 16:27

Foto: Pixabay

 

Doença de Parkinson, artrite, doença de Alzheimer, depressão, epilepsia, autismo, artrite, esclerose múltipla – essas e várias outras doenças podem ser combatidas pela cannabis, ou como é popularmente conhecida, maconha. Para os pacientes que dependem do canabidiol, basta uma indicação médica para o uso dos produtos e um cadastro na própria pasta, que pode ser agendado pelo telefone 160. Nem todo mundo sabe, mas em outubro passado, a Secretaria de Saúde publicou uma portaria que reduz a burocracia no acesso às substâncias da maconha, para uso medicinal.

Com essas novas regras, os compostos passam a ser ofertados na Farmácia de Alto Custo de Brasília. Um dos grandes problemas é a falta de produção nacional. Além de enfraquecer o tratamento, torna limitada a compra do produto. Para se ter uma idéia, o custo em média de uma única embalagem é de US$ 70 (cerca de R$ 280), sem as taxas de transporte. Um valor bem alto para parte da população de Brasília.

 

O uso terapêutico do canabidiol

Em janeiro de 2015, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizou o uso terapêutico de canabidiol (CBD), que é um dos principais componentes da maconha. A agência reguladora, que antes proibia o uso da planta, definiu os critérios e procedimentos para a importação de pessoa física mediante a prescrição por profissional habilitado.

A Dra. Carolina Nocetti, PhD na área da cannabis e inovação em saúde, acredita que a maior mudança após autorização da Anvisa foi vista na qualidade de vida de milhares de pacientes brasileiros com doenças crônicas e refratarias, que hoje podem se beneficiar dessa terapia. “Atualmente há mais de 4 mil brasileiros com autorização para importação. Acredito que o acesso à terapia canabinoide por estes pacientes traz um esperança no tratamento de sua doença, que passou por várias tentativas de diferentes medicamentos sem obter sucesso”, conta a doutora que coordena a ABMedCAN.

Em dezembro de 2014, o Cremesp (Conselho Regional de Medicina de São Paulo) aprovou o uso compassivo do canabidiol para o tratamento de epilepsias da criança e do adolescente refratárias aos tratamentos convencionais. A Dra. Carolina acredita que com pesquisas, informações e capacitação profissional, as associações médicas irão aderir a cannabis medicial. “O uso terapêutico é muito promissor. As pessoas cada vez mais têm buscado por tratamento, quando já tentaram tudo e não tiveram sucesso. A terapia canabinoide está trazendo esperança e qualidade de vida aos pacientes e seus familiares”, explica.

 

Criação, benefícios e malefícios

O canabidiol pode ser sintetizado em laboratório ou extraído da cannabis. A planta passa por um processo de extração que pode ser alcoólico, supercrítico de CO2, ou por outros métodos. Escolhida a variedade de cannabis a ser utilizada, submete-se a matéria prima, que pode ser a planta inteira ou suas inflorescências a variados processos de extração que separam os princípios ativos, que são oleosos, dos outros componentes da planta, que são solúveis em água. Após esta separação, a fração que contém os canabinoides é concentrada e usada na produção de medicamentos com diferentes diluições, as quais podem ser feitas em óleos vegetais, álcool ou glicerol.

Para Renato Malcher, bacharel em ciências biológicas pela Universidade de Brasília (UnB), a maconha tem vários benefícios. “A cannabis e seus derivados, quando usados de forma orientada e não abusiva, produzem efeitos positivos, que muitas vezes não são obtidos por nenhum outro medicamento atualmente disponível”, conta o professor.

Potencial terapêutico como neuroprotetor, imunomodulador, anti-inflamatório, anticonvulsivante, entre outros, são alguns dos benefícios do canabidiol. Ele também ajuda na melhoria da resistência à fratura de ossos, combate a depressão, diabetes, doenças cardiovasculares e esquizofrenia.

Usado de forma abusiva, a cannabis pode ser um risco, mesmo que mínimo. “O uso em excesso da cannabis pode levar a um quadro problemático em cerca de 9% dos usuários. Quando ocorre, o nível de gravidade de dependência em substâncias varia muito conforme a situação psiquiátrica, emocional e social de cada indivíduo”, conta o doutor em neurociências, Rodrigo Malcher.

O tetraidrocanabinol (ou THC) é a principal substância psicoativa encontrada nas plantas do gênero cannabis. Ele possui efeitos cognitivos e gera euforia e mudanças na percepção. Já o canabidiol (ou CBD), que constitui grande parte planta, não provoca mudanças de humor e comportamento. Assim, ele “não é susceptível de ser abusado”, diz a Organização Mundial da Saúde (OMS).

 

 

Estevan Furtado sob supervisão de Basilia Rodrigues

 

 

Revista Evoke

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