Negro de corpo e alma

Ações, falas, atitudes do dia a dia que contribuem para a formação de preconceitos

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Basilia Rodrigues
Lifestyle, Tonalidade
25/05/18 12:30

“Ela tem os traços grossos mas é bonita”, “não tem culpa de ter nascido negra”, “o corpo de uma negra é diferente”, “é negro mas tem alma branca”. Essas são frases comuns que contribuem com a formação de preconceitos e rótulos entre negros e brancos. São exemplos de pensamentos internalizados por negros, muitas vezes da pior maneira possível. Diante disso, deparo-me com o seguinte: será o negro um perseguido histórico que nunca deixará de ser visto assim? E como os negros realmente se vêem? Quando nos daremos conta de que há mais manifestações racistas naturalizadas por aí?

Aqui, devemos respeitar que cada caso é um caso. Cada indivíduo reúne um misto próprio de vitórias e derrotas que firmam a sua personalidade. Ainda que a cor negra seja a mesma. A realidade é construída pelo o que o ser humano internaliza sobre ordem social e quem ele é na sociedade. A identidade dessa pessoa começa a ser descoberta ainda criança, em casa, com a família. Nessa sistemática, criam-se os padrões: o que é sucesso e o que é beleza. Por exemplo um perigo na mente tanto de ingênuos quanto de pessoas desqualificadas.

Interessante perceber como as ideias nascem nas nossas cabeças e se espalham pelo mundo afora. E também o lado de fora molda os nossos pensamentos, como se fossem sensíveis ao toque. Mas será que existe uma ordem? Pensamos e depois fazemos. Ou as coisas vão acontecendo e fazem o nosso interior funcionar.

A psicanalista Neusa Santos, em um dos seus últimos textos antes de se matar em 2008, fez vários questionamentos. “Mas será que acabamos mesmo com a injustiça, com a humilhação e com o desrespeito com que o conjunto da sociedade brasileira ainda nos trata? Será que acabamos com a falta de amor próprio que nos foi transmitido desde muito cedo nas nossas vidas? Será que já nos libertamos do sentimento de que somos menores, cidadãos de segunda categoria? Será que gostamos mesmo da nossa pele, do nosso cabelo, do nosso nariz, da nossa boca, do nosso corpo, do nosso jeito de ser? Será que nesses 120 anos de abolição, conquistamos o direito de entrar e sair dos lugares como qualquer cidadão digno que somos? Ou estamos quase sempre preocupados com o olhar de desconfiança e reprovação que vem dos outros?”.

A abolição chega aos seus 130 anos agora em 2018 e as dúvidas de Neusa persistem, ainda que ela mesma não possa mais buscar respostas. Por seus estudos, em vida, ela já era considerada uma psicanalista de sucesso mas aos 60 anos, Neusa se matou ao se jogar do alto de uma construção no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, deixando um bilhete pedindo desculpas por seu ato.

O Correio do Brasil publicou que “no mesmo dia em que se matou, quase à mesma hora, um casal de negros (Umberto Alves e Louise Silva), que saía do Restaurante Nova Capela.  Ao embarcar tarde da noite num ônibus na Lapa, foi parar na delegacia, na esteira de um entrevero envolvendo dignidade, preconceito e despreparo policial que só terminaria por volta de meio-dia com depoimentos e IML”. Segundo o jornal, a versão do casal, a polícia retirava um negro à força de um ônibus porque ele gritou que o carro-patrulha estava estacionado irregularmente, interrompendo o trânsito. “A interferência solidária do segundo negro e sua mulher gerou a confusão truculenta na mesma hora em que, por motivos insondáveis, Neusa Santos Souza, com as mesmas algemas que humilham cidadãos em todas as Lapas da vida, e ainda com o coração desesperançado, saía também forçada de um coletivo chamado Sociedade Brasileira”. Que comparação!

 

 

Revista Evoke

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