Mais do que um mês…

O país lembra o Dia da Consciência Negra em todo novembro. Mas o racismo é diário

Mariana Branco
Lifestyle, Tonalidade
15/01/20 17:30

A ideia do Dia da Consciência Negra é refletir sobre a desigualdade racial, mas, também, para celebração e resgate das origens em um país que carrega a mancha da escravidão da população negra, trazida de países da África em migrações forçadas. Há um dia e um mês, o 20 de novembro, marcado em nosso calendário para essa reflexão. Mas a dura realidade do racismo é diária e marca muito mais a vida de quem sofre. Não é cultural, é crime mesmo.

No Distrito Federal, a maior parte da população negra está fora do Plano Piloto. Segundo pesquisa divulgada pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), quase 64% da população negra do DF vivem em regiões administrativas de média e baixa renda.

Entre elas está Ceilândia, a região administrativa mais populosa do Distrito Federal e onde 63,5% da população se declaram negra, também segundo dados da Codeplan. Foi lá que professores do Centro de Ensino Médio (CEM) 4 organizaram uma série de atividades durante a Semana da Consciência Negra, para que os alunos refletissem de forma crítica sobre seu papel na sociedade. A reportagem EVOKE acompanhou.

O projeto é do professor de História, Valter Halyson Leal da Silva, e da professora de Artes, Ana Carolina Conceição. “Os nossos alunos conseguem perceber que existe um tratamento diferenciado, mas não entendem exatamente o porquê. Aí é que vem a nossa função como educadores públicos, que é fornecer as ferramentas para que eles percebam os mecanismos de uma sociedade que, em sua estrutura, é racista, a fim de elaborar estratégias para passar por isso, se perceberem e se valorizarem”, explica Valter.

A escola foi decorada com obras de artistas negros, como Rubem Valentim e Mestre Didi e teve uma apresentação da poeta negra ceilandense Carolina de Souza. Os estudantes também participaram de rodas de conversa sobre temas como racismo estrutural, feminismo negro e religiões de matriz africana. Além disso, organizaram uma feira gastronômica com pratos africanos. Os alunos ainda protagonizaram apresentações musicais, teatrais e de dança.

 

55,8% da população brasileira são de pessoas negras. Segundo o critério do IBGE, tanto pardos quanto pretos compõem a população negra do país.

 

No ritmo da dança

Samuel Gonçalves Ferreira, 16 anos, é dançarino de break e, durante a Semana da Consciência Negra, criou, com os colegas, o grupo Ponta de Lança. A ideia é seguir com o grupo para além das apresentações no evento da escola, onde os meninos e meninas dançaram seis músicas. O garoto conta que a dança é a forma que encontrou para se expressar.

“Comecei a fazer balé na igreja, mais ou menos há seis anos. Depois, o pessoal da igreja começou a dançar também outros estilos. Comecei a me apresentar em escolas. Então, conheci os Les Twins, dançarinos da Beyoncé, que se tornaram uma das minhas influências. A dança é o modo que consigo me expressar. Isso me trouxe ares novos, influências que me transformaram”, relata.

Para Samuel, em algumas ocasiões a consciência de ser negro surgiu por meio da break dance – um estilo de dança de rua que é parte da cultura hip hop, criado por afro-americanos e latino americanos nos Estados Unidos. “Alguns espaços rejeitam o break, as influências que ele possa trazer”, comenta.

 

Grupo Ponta de Lança: a dança como forma de se expressar / Foto: Mariana Branco

 

Além do grupo Ponta de Lança, Samuel tem outro projeto para continuar investindo na veia artística: em 2020, quer conseguir vaga na Escola Parque Anísio Teixeira, em Ceilândia, famosa pelas oficinas de dança e apresentações. “Pretendo seguir a carreira de engenheiro civil, mas continuar dançando”, diz.

Para o jovem dançarino, o Dia da Consciência Negra é uma data de reivindicação de espaço em uma sociedade que ainda segrega. “Todo dia é dia da consciência negra. Fomos muito oprimidos e a data representa, para a gente, liberdade e conscientização sobre nosso espaço na sociedade. Devemos reivindicar nossos direitos e nosso espaço”, afirma.

 

Samuel Gonçalves Ferreira, 16 anos, é dançarino de Break / Foto: Mariana Branco

 

Nos acordes da música

Em sua participação na Semana da Consciência Negra do CEM 4, Ezequiel Alves Furtado, 16 anos, abraçou uma paixão: a música. Do cavaquinho ao violão, passando pelo cajón (um instrumento de percussão semelhante a uma caixa de madeira), foi o garoto que ajudou a dar corpo a canções poderosas, que encarnaram o espírito do que os estudantes queriam expressar.

Ezequiel foi instrumentista nas performances dos colegas das músicas Identidade, de Jorge Aragão; Preciso me encontrar, de Cartola; Killing in the name, a canção da banda de metal norte-americana Rage Against the Machine que fala de brutalidade policial, e Cota não é esmola, de Bia Ferreira.

Assim como Cartola, o mestre divino do morro, Ezequiel é autodidata. Tanto o pai biológico, com quem tem pouco contato, quanto o padrasto, a quem chama de pai, são músicos. O garoto aprendeu tudo que sabe vendo os dois tocarem. “Eu via os outros tocando e aprendi enchendo o saco do pessoal. Pedia para me ajudarem. Gosto de escutar rock. Minha banda preferida é Slipknot”, conta.

A Semana da Consciência Negra colocou Ezequiel para pensar sobre a própria identidade. “O meu pai biológico é negro, minha mãe é branca. Eu não sei o que eu sou. Minha mãe diz que eu sou amarelo, tem gente que diz que eu sou pardo. Acho que [sou negro] sim, porque meu cabelo é muito louco. Na verdade, ainda não cheguei a uma conclusão”, diz.

Aluno da Escolinha de Futebol do Internacional em Vicente Pires, o menino sonha com uma carreira no esporte. “Se não der certo, vou fazer faculdade de Tecnologia da Informação ou até de música”, brinca.

 

No cheiro e no sabor

As gêmeas Juliane Soares Brandão e Beatriz Soares Brandão, de 15 anos, sempre gostaram de cozinhar. As duas gostam de fazer doces na cozinha de casa e já até levaram a produção para vender. Por isso, quando tiveram de optar por uma atividade na Semana da Consciência Negra, não tiveram dúvidas: escolheram participar da feira gastronômica.

Ficaram responsáveis pela comida baiana de origem africana e descobriram a existência de pratos até então desconhecidos, como arroz com coco e caldo de mocotó. “Só a tapioca que eu já conhecia”, conta Juliane. Para a menina, a existência de um Dia da Consciência Negra é importante. “É para conscientizar as pessoas sobre a origem afro”, diz. “Serve para mostrar como as pessoas sofrem”, complementa Beatriz, que se considera parda.

 

64% da população negra do DF vivem e regiões administrativas de média e baixa renda. 

 

Identidade

Iniciativas como a do CEM 4, e diversas outras que marcaram o Dia da Consciência Negra país afora, parecem estar dando resultado. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domícilios (Pnad) de 2018, do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), o número de brasileiros que se declaram pretos tem crescido.

Em 2012, 7,4% da população entrevistada para a Pnad se declarava preta. Em 2015, o percentual aumentou para 7,7%. Em 2018, atingiu 9,3%. O percentual dos que se declaravam pardos era de 46,5% no ano passado. Segundo o critério do IBGE, tanto pardos quanto pretos compõem a população negra do país. Assim, 55,8% da população brasileira são de pessoas negras.

 

 

Dia da Consciência Negra 

20 de novembro: Dia da Consciência Negra. A data tem origem na década de 1970, quando um grupo de quilombolas no Rio Grande do Sul decidiu homenagear o líder do Quilombo dos Palmares, Zumbi, assassinado pelas forças coloniais brasileiras nesse dia, em 1695. Em 1978, o Movimento Negro Unificado transformou a data em nacional e, em 2011, uma lei federal instituiu o 20 de novembro como Dia Nacional da Consciência Negra. A data é feriado em 1.260 municípios, entre eles São Paulo.

 

 

 

Revista Evoke

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