Em todo mundo, as pessoas se dividem em diversas expressões de crenças e de religiões. Cada uma com suas doutrinas e normas, mas existe uma característica em comum que as une: a fé

Amanda Pessoa
Bem Estar, Evoke Mind
22/07/19 15:44

Fé [substantivo feminino]

 

1- Convicção da existência de algum fato ou da veracidade de alguma asserção; credulidade, crença; 2. Conjunto de ideias e crenças de determinada religião ou doutrina; 3. A primeira das três virtudes teologais; 4. Fidelidade a compromissos e promessas; confiança, crédito; 5. Confirmação de algum fato; comprovação, corroboração, validação.

 

A palavra fé tem origem do Grego pistia, que quer dizer “noção de acreditar” e no Latim fides, que significa “atitude de fidelidade”. Seu significado quer dizer “confiança”, “crença”, “credibilidade”. De acordo com um dos livros religiosos mais relevantes do mundo, a Bíblia, “fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos”. Ou seja, fé é ter uma atitude contrária à dúvida e está intimamente ligada à confiança.

Ao longo da sua história, o ser humano tem usado a crença na esperança de atrair positividade e na busca para suprir a necessidade de algo sobrenatural para explicar o inexplicável. Acreditando que a morte não é o fim e que tem algo além do que vivemos na Terra. Assim surge o mistério da fé, que norteia praticamente todas as religiões do mundo. Sejam monoteístas (de um só Deus) ou politeístas (com vários Deuses), todas elas têm como característica a fé de crer que forças sobrenaturais controlam a nossa vida.

Cientistas, biólogos e médicos têm reconhecido que a crença pode fortalecer a ciência. Nos anos 2000, surgiu a primeira teoria que as colocou lado a lado. A fé e todas as religiões que surgiram em torno dela, seria um ingrediente seminal para a evolução da espécie humana.

O biólogo americano David Sloan Wilson, da Universidade Binghamton, é ateu e um dos grandes defensores do papel da crença na sobrevivência humana. Para ele o homem evolui com a fé, já que ela é responsável por conferir vantagens a quem a desenvolve. A tese ganhou mais força quando o também biólogo americano Dean Hamer, coordenador do setor de genética do National Cancer Institute, afirmou que a fé em Deus estaria no gene, no “gene de Deus”. Ele observou que aqueles que tinham sentimentos religiosos compartilhavam o gene VMAT2, que regula as monoaminas que possuem papel na construção da realidade e na percepção das alterações da consciência, situações comuns em experiências místicas.

Papa Francisco corroborou com a tese, quando, em 2014, afirmou que as teorias científicas sobre a criação e evolução humana estão corretas. “Quando lemos em Gênesis sobre a criação, corremos o risco de imaginar que Deus tenha agido como um mago, com uma varinha mágica capaz de criar todas as coisas. Mas não é assim. O Big Bang, que hoje temos como a origem do mundo, não contradiz a intervenção criadora, mas a exige. A evolução na natureza não é incompatível com a noção de criação, pois a evolução exige a criação de seres que evoluem”.

Assim, a crença em algo que norteia a nossa vida se faz presente e essencial para a humanidade e não precisa de tradução. É dessa forma que o educador físico, Randson Andrade, entende a fé. Ele não segue uma religião, mas acredita em Deus ou em uma entidade superior que rege a vida. “Seja no propósito de arrumar um bom emprego ou em fatos que não dependem da nossa vontade, como o de contrair uma doença incurável, por exemplo. A fé faz parte da nossa essência e precede a existência. Nós nos definimos com nossas escolhas e ações diante da vida, essa força e a motivação que a guia, foi o presente de Deus, a nossa liberdade depende desse fato. Fé é uma das virtudes teologais, para mim é a força que prescinde qualquer motivo, é acima de tudo um guia para grande parte da humanidade”, conclui.

Essa força, essa energia, esse “algo” pode ser traduzido de várias formas Alah, Deus, Jah, Jeová, Oxum, Buda, etc. A evolução da humanidade e a sua diversidade cultural fez com que existisse uma pluralidade de crenças. Na procura por um direcionamento, há pessoas que se apegam na religiosidade – que é o conjunto de crenças, adoração, cultos e revelações dadas por um ser superior – e aqueles que seguem a espiritualidade – que é a busca pela sua missão, bem-estar interior, conhecimento da alma humana e a fé em suas habilidades.

Nesse caminho, o coordenador técnico, Bruno Rocha, passou a frequentar um centro universalista que comunga com o chá ayashuasca, também conhecido como Santo Daime, um chá vegetal indígena que existe há mais de cinco mil anos. “Nós não nos vemos como algo religioso, mas sim espiritualista. Acreditamos que todos são uma extensão de Deus e todos somos filhos da criação, que somos irmãos, vindos da mesma fonte independente de cor, de orientação sexual ou credo, até mesmo quem não acredita em nada, todos são bem-vindos. Acreditamos no ser humano que está em nós mesmos, que nós estamos aqui para evoluir e para aprender a amar”, explica.

Foi através de um convite do seu tio, após o falecimento de seu pai, que Bruno passou a frequentar o centro e foi pela fé que ele encontrou o que tanto buscava. “Hoje me sinto diferente do que eu era. Muito mais calmo, tranquilo, mudei em muitas áreas para melhor. Me tornei alguém mais amigável, mais fraterno, sem rancores, sem mágoas, aprendi a perdoar, principalmente no íntimo da minha família mesmo”. Sua fé o ajudou a se tornar mais consciente e entender a sua missão. “A gente está aqui nesta encarnação para aprender ser melhor um pouquinho, para poder melhorar o que nossos antepassados nos tornaram, com muita gratidão a eles”, esclarece.

 

A fé como cura

O indivíduo usa a fé em diversas situações da sua vida, sejam elas físicas ou emocionais, como arma de esperança para que o melhor aconteça. Esse sentimento é como uma virtude, sendo uma adesão de forma incondicional a uma hipótese, em que a pessoa considera como verdade pela absoluta confiança que deposita nesta ideia ou fonte de transmissão. Essa certeza é capaz de feitos intensos como a cura.

Segundo o filósofo e teólogo cristão Paul Tillich, para que se tenha uma cura pela fé, é necessária uma conexão entre mente, corpo e espírito. Ao atingir esse ponto, temos uma ação transcendente, algo misterioso que acompanha e segue todas as atividades de cura. Estudos da neurociência têm apontado que pessoas nesse estado apresentam ativação de áreas cerebrais similares àquelas induzidas pelo efeito placebo. Pois, ela ativa regiões do cérebro que estão relacionadas com as expectativas positivas em relação ao futuro.

A cura de algumas patologias está muito relacionada à fé e envolve vários aspectos. Englobam a crença em um Ser supremo, em si mesmo, num tipo de tratamento médico, dentre outras coisas.

 

Testemunhas da fé

Além da cura física, a fé também é capaz de curas emocionais e de ser a base para reestruturar toda a vida. O químico Wallace Amorim tem sua fé alicerçada em um Ser supremo e em Jesus Cristo, ele já teve diversas provas da força da sua fé conseguindo se recuperar de um acidente de moto, cura do câncer da sua mãe e ter sua vida transformada. “Estar vestido da armadura da fé é acreditar que mesmo no meio do caos você tem certeza que as coisas vão dar certo. Acreditar no poder das suas palavras, na sua mente e acreditar que existe um criador que designa as coisas no seu devido lugar para te fazer o bem”.

Wallace crê que a fé é algo muito singular. “Eu posso ter a mesma religião que você, frequentar os mesmos templos e ser testemunha dos mesmos fatos, mas eu vou crer do meu jeito”, explica.

A advogada Patrícia Zapponi acredita que a fé está alicerçada em algo mais profundo. Desde criança, ela segue uma religião de matriz africana e une Candomblé, IFA e Jurema. Ela afirma que a fé está em tudo que faz e é tudo que tem de mais precioso.

Usufruindo dessa “arma”, a advogada já pôde testemunhar o poder da sua fé algumas vezes. “Tive minha vida transformada pela fé. Fui vítima de violência doméstica e vi minha vida no chão. Estava passando por uma separação e meu ex-marido tentou me destruir, me tirou emprego, amigos, me bateu e me difamou na internet. Consegui me reerguer com a única coisa que tinha restado, a fé. Isso me fez fortalecer ainda mais”.

Armada de sua fé, Patrícia foi além. Ela criou, há seis anos, o Fórum de Diversidade Religiosa da CLDF e Entorno, que reúne diversas lideranças religiosas no combate da intolerância, violência doméstica e familiar, preconceito, racismo e homofobia. Todos no mesmo objetivo de promover a paz e o bem, conduzidos pela fé. Prova disso foi a cura de uma de suas filhas no início do ano passado, todos os participantes do formulário, da muçulmana a ateia, se uniram para pedir por ela.

 

 

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