“Eu quero só notícia boa”

O jornalista Rinaldo de Oliveira saiu do jornalismo convencional e criou seu próprio site de "Só Notícia Boa"

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Basilia Rodrigues
Entrevistas, Notícias, Só Notícia Boa
10/06/17 17:13

Aos 53 anos, trinta deles vividos no Jornalismo, o jornalista Rinaldo de Oliveira é o criador do maior site de boas notícias do Brasil. Todos os dias, ele publica reportagens positivas que inspiram um público cansado de só falar em problemas. Ao lado da mulher Andrea Fassina, também jornalista, da filha Lorena, de amigos e colaboradores em todo mundo, ele constrói um novo Jornalismo.

 

EVOKE: De onde veio a sua ideia de fazer um site só com notícias boas?

RINALDO DE OLIVEIRA: O site Só Notícia Boa nasceu porque eu estava passando mal. Foi em 2009. Eu comecei a ter uma dor danada de estômago e fui parar no hospital. Na época, eu apresentava na TV um jornal local aqui em Brasília que dava muita “notícia de sangue” e aquilo me incomodava muito.

O médico disse: “Você não tem nada. A sua alimentação é boa”. Ele avaliou que meu problema não era físico, era emocional. E disse para eu equilibrar isso na minha vida. Daí, eu criei um blog chamado Rinaldo Good News, que depois virou o site Só Notícia Boa.

 

EVOKE: Você viu que tinha público para transformar um blog sobre boas notícias em um site?

RINALDO DE OLIVEIRA: O número de interessados foi crescendo. Eu queria fazer um portal, mas não conseguia achar um nome. Um dia eu falei para a Andrea, minha mulher, de uma matéria que tinha passado no jornal que eu apresentava. E ela respondeu que não tinha visto. Disse que não assistia o meu telejornal! Eu falei: “Como? A minha família não me assiste na televisão?”. Ela me contou que a Lorena, minha filha, na época com 10 anos, não gostava de assistir o jornal que eu fazia, preferia colocar na TV a cabo. Daí fui falar com a minha filha. “Poxa filha, você não assiste o jornal do papai? Tanta criança queria ter o pai como apresentador de televisão, todo chique numa bancada… Você não me ama?”. E ela respondeu… essa é a frase dela: “Papai, eu te amo. Só que o seu jornal só dá notícia de gente que morre, gente que mata, que maltrata criança e bichinho. E eu gosto só de notícia boa”. Quando ela falou isso, “só de notícia boa”, veio um clique na hora, voei para o computador e comprei o domínio do site.

 

EVOKE: Tem reunião de pauta para discutir notícia boa? De onde vem a inspiração?

RINALDO DE OLIVEIRA: É tudo igual. A gente recebe sugestão de pauta pelo e-mail, pelo Facebook. O site virou uma referência. Quando as pessoas encontram notícia boa, elas mandam pra gente. Todo dia tem muita sugestão. No início do Só Notícia Boa, que não existia nada parecido, eu ficava horas pelejando atrás de notícias boas. Hoje, temos muitas histórias de superação, de boas ações, temos uma editoria só de boas ações, de política, economia…

 

EVOKE: Antes do Só Notícia Boa, o que você fez no Jornalismo?

RINALDO DE OLIVEIRA: Fui chefe de reportagem na CBN em São Paulo, passei pela TV Manchete, depois eu fui para o Fantástico (TV Globo) onde eu aprendi a fazer o Jornalismo Show. E passei pela TV Cultura, foi onde eu aprendi a fazer o Jornalismo Cidadão, em que você não conta um caso só por contar, você conta se for pra melhorar a vida de alguém. De lá, eu fui para o jornal da meia noite do SBT. Fui da JB TV. E também fui da Band por oito anos. Tive uma formação profissional que me levou para o Só Notícia Boa. Eu trabalhei com monstros do Jornalismo. Aprendi o que dá ibope, o que as pessoas querem ver. Fiz um portal com uma cara televisiva. Tanto que as matérias que estão no site são simples, tem linguagem de rádio e TV.

 

EVOKE: E como você organiza o site?

RINALDO DE OLIVEIRA: É uma startup. As pessoas trabalham de casa. Há menos de dez sites como o nosso (sobre notícias positivas) no mundo e todos nasceram mais ou menos na mesma época. Eu não entendo nada de internet, tecnologias… Uma vez eu fiz uma matéria sobre um homem que era gordo e conseguiu ficar todo trincado. Era “Papai bonito aos 40”. Ele tinha engordado 30kg e quando a filha nasceu, pensou que deveria estar um gato para a dança de 15 anos da menina. Aí, ele começou a trabalhar, malhar, focou a vida dele. O nome dele é Rodrigo, um publicitário da agência 7 pontos. Depois que a notícia saiu, ele disse que gostou e tal, mas me disse que o meu site era feio. Foi assim que mudou a cara do site. Ele é justamente o dono da agência que desenvolveu o novo site, fez uma parceria comigo. A página bombou, é alegre, informativa…

 

EVOKE: O site tem anunciante?

RINALDO DE OLIVEIRA: A gente de Jornalismo não entende de Publicidade. Um dia eu conheci o publicitário Fernando Braga. Quando eu saí do meu último emprego, eu liguei para o Rodrigo e para o Fernando, e falei para eles que não ia conseguir bancar o custo do site. Quem hospeda o site é o Amazon, que eu pago em dólar! Aí, eles me ajudaram. Eu e Fernando começamos a ir para São Paulo, passar em várias agências de Publicidade, dizer que o nosso produto faz um Jornalismo diferenciado, a perguntar se havia algum cliente interessado em ter o nome vinculado a um site de notícias boas. As pessoas não só começaram a anunciar, como a voltar para anunciar de novo. A gente plantou, agora está colhendo os frutos. Eu tenho planos de fazer uma grande redação.

 

EVOKE: Você procurou parceiros para escrever boas notícias junto com você?

RINALDO DE OLIVEIRA: Nunca procurei. As pessoas vêm. Hoje nós somos em 7 jornalistas, além de colaboradores. Tem gente do Brasil, dos Estados Unidos, da Austrália, da Suíça. Nosso site tem leitores suíços (risos)! Eu descobri que dos 150 países da ONU, 120 lêem Só Notícia Boa. Já encomendei o dispositivo para traduzir as reportagens para o inglês, francês, para as pessoas clicarem e traduzirem pra língua delas. Noventa por cento da audiência vem do Brasil, depois, em segundo lugar, Estados Unidos e Portugal se alternam. Atualmente, temos mais de 1 milhão de acessos por mês! Aos 53 anos, trinta deles vividos no Jornalismo, o jornalista Rinaldo de Oliveira é o criador do maior site de boas notícias do Brasil. Todos os dias, ele publica reportagens positivas que inspiram um público cansado de só falar em problemas. Ao lado da mulher Andrea Fassina, também jornalista, da filha Lorena, de amigos e colaboradores em todo mundo, ele constrói um novo Jornalismo.

 

EVOKE: Engraçado, é comum ouvir que a população não quer assistir boas notícias e por isso programas violentos têm audiência…

RINALDO DE OLIVEIRA: Mentira. Mentira, repito, mentira! Faço sempre uma comparação com comida. Você come a comida ruim quando você não tem comida boa. No momento em que você experimenta a comida boa, você não quer mais saber de comida ruim. As pessoas perdem as tardes delas em frente à televisão, assistindo aqueles programas sanguinolentos porque elas não têm alternativa. Mas também tem o seguinte: as pessoas assistem o ruim pra achar que a vida delas é menos pior. Aí no momento que você apresenta pra elas um produto positivo, uma notícia bacana, legal, que emociona, que dá novos horizontes, as pessoas começam a se apaixonar. Essa ideia de que o jornalismo trash é o que vende, é uma ideia de uma imprensa opressora que quer deixar as pessoas cada vez mais tristes, mais pra baixo pra que elas não possam criar se desenvolver, sair nas ruas… As pessoas querem ler notícias boas. Elas gostam!

 

 

Por: Basília Rodrigues

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