Direção x Roteiro

Saiba o que é dissonância de discurso e como percebê-la

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Johil Carvalho
Cinema, Entretenimento
09/01/20 15:22

Você já acabou de assistir um filme com ótima qualidade técnica, história muito boa e mesmo assim ficou com uma sensação de que “algo errado não estava certo”?

Se você já passou por isso, talvez tenha encontrado uma dissonância de discurso entre roteiro e direção.

Essa dissonância não é simples de se perceber, pois, em geral, está oculta na forma de apresentação do filme, em cenas, músicas, iluminação, é um conflito de narrativas.

Em um filme, há várias linhas narrativas. Em geral, o diretor, que é o grande maestro da obra, influi sobre todas elas, mas às vezes a visão do diretor conflita com a mensagem da primeira narrativa da obra: o roteiro.

Assim, ao invés de os aspectos visuais e emocionais reforçarem a ideia do roteiro acabam por contradizê-lo.

Não é fácil encontrar exemplos dessa desarmonia, afinal um dos trabalhos do diretor é tornar real, da melhor maneira possível, a visão do roteiro. Essa divergência, no entanto, não significa necessariamente uma falha técnica, mas pode ser uma opção estética. Para materializar o que estou tentando dizer vou trazer dois exemplos de filmes, que, na minha opinião, exibem essa dissonância.

O primeiro exemplo foi o filme que me fez pensar sobre esse conceito e ir atrás de entender o que estava acontecendo com minha análise. O filme Watchmen, 2009, adaptação de Zack Snyder da história em quadrinhos de mesmo nome.

Como já escrito em uma edição anterior da revista EVOKE, sou um fã de Histórias em Quadrinhos e a adaptação para o cinema de Watchmen foi um acontecimento. O filme era a materialização da HQ tanto visualmente quanto de narrativa de história mas saí do cinema com um sentimento conflitante em relação, se havia ou não gostado do filme.

 

Cena do filme Watchman – 2009

 

Ao procurar críticas e análises do filme me deparei com uma que me causou grande alívio ao explicar que, na visão daquele crítico, o problema do filme era a relação narrativa entre roteiro e direção, ou seja, enquanto o roteiro mostrava as facetas um tanto infantis, desajustadas e até com toques de ridículo, de pessoas comuns se fantasiarem e saírem às ruas fazendo justiça com as próprias mãos, a parte visual do filme as mostra como semideuses com poderes sobre-humano, de forma engrandecida e venerável.

Já em Grandes Olhos, filme de 2014 de Tim Burton que conta a história real da pintora Margaret Keane, que teve a autoria de suas obras roubada pelo seu marido. O filme trata de um forte drama vivido por uma mulher que teve de levar seu marido ao tribunal para reaver seus direitos, entretanto, a fotografia do filme é clara, em tons suaves, com um clima de sonho, a narrativa visual não passa ao espectador a mesma angústia que a história tenta passar.

 

Cena do filme Grandes Olhos – 2014

 

Por fim, lembro que essas análises são subjetivas, aqui escrevo sobre minha opinião acerca desse tema e desses filmes e os convido a ver ou rever essas e outras obras com esse novo olhar, percebam se os elementos visuais do filme estão colaborando ou dizendo outra coisa sobre a história que está sendo contada.

 

 

Revista Evoke

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