Depressão não é mi mi mi

Segundo a OMS, 5,8% da população brasileira sofre de depressão, o que equivale a mais de 11 milhões de pessoas

Tatiane Souza
Bem Estar, Saúde
10/01/20 16:19

Quem vê a jornalista Gabriela Andrade, 26 anos, sempre feliz e interagindo com as pessoas, nem imagina que ela tem depressão e ansiedade. O caso dela não é uma exceção porque muita gente convive com a doença. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de pessoas com depressão aumentou 18%, entre 2005 e 2015, o que representa que mais de 300 milhões de pessoas sofrem com esse transtorno mental no mundo, sendo que a prevalência é maior entre as mulheres.

A depressão é uma doença psiquiátrica crônica e recorrente, que produz uma alteração do humor caracterizada por uma tristeza profunda, desesperança, baixa autoestima, distúrbios do sono e do apetite. Esses são alguns dos sintomas de pessoas que sofrem desse mal. A depressão é caracterizada pelo medo, preocupação ou apreensão. Cada paciente sente de uma forma diferente. Ela não escolhe cor, gênero, idade ou etnia.

Alguns confundem a depressão com tristeza e acham que é algo passageiro. Entretanto, elas possuem características diferentes. “A depressão é um humor persistente em que o indivíduo fica deprimido por, pelo menos, duas semanas, gerando impacto significativo na vida social. A tristeza consiste no humor momentâneo”, explica o psiquiatra da Aliança Instituto de Oncologia, Roney Vargas Barata.

De acordo com Graziele Machado,  psicóloga clínica e oncológica da Aliança Instituto de Oncologia, esse transtorno mental é causado por várias alterações químicas no cérebro do indivíduo deprimido, ou seja, é uma doença que também é genética e que pode ocorrer porque os neurotransmissores (impulsos nervosos gerados no cérebro) funcionam de maneiras diferentes. “Os fatores psicológicos e sociais, muitas vezes, são consequência e não a causa da depressão”, afirma. Ela garante que o estresse pode antecipar a doença entre aqueles que representam predisposição com probabilidade genética e podem apresentar sintomas após alguns gatilhos como: luto, término de relacionamento, perda de emprego, entre outros fatores”, explica.

Segundo a OMS, 5,8% da população brasileira sofre de depressão, o que equivale a mais de 11 milhões de pessoas. Na pior das hipóteses, a depressão pode levar ao suicídio. Aproximadamente 800 mil tiram a vida a cada ano, sendo a segunda principal causa de morte entre as pessoas com idade entre 15 e 29 anos. O estudo ainda mostra que menos da metade das pessoas afetadas no mundo (em vários países, menos de 10%) recebe o tratamento.

No caso de Gabriela, a personagem dessa matéria, demorou um tempo até ela perceber que precisava de assistência médica. Durante o ano de 2017, época em que estava desenvolvendo o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), ela já sentia alguns sintomas, como choro imotivado, isolamento, solidão e tristeza… “Queria me isolar e apesar de estar rodeada de pessoas o tempo inteiro, eu me sentia sozinha”, comenta.

Querer passar um tempo sozinho(a) é algo importante para colocar os pensamentos em dia, se reconectar e ter autoconhecimento. Contudo, ter equilíbrio é fundamental. Ela sempre gostou de ficar sozinha mas esse comportamento foi se intensificando. A primeira pessoa que percebeu que ela poderia estar com depressão foi a mãe dela, que também tem a doença. Segundo a jovem, muita gente conversava com ela via aplicativo e não percebia o que se passava. Perguntar como as pessoas estão e abraçar mais são algumas dicas que Gabriela deixa.

“A pior depressão é aquela que vem mascarada com um sorriso”.

O start para procurar ajuda só veio depois que pensamentos sobre a morte começaram a ser recorrentes. O corpo dela começou a responder pela má alimentação, pois ela não tinha vontade de comer e nem beber absolutamente nada. O físico de Gabriela respondeu por isso. “Emagreci bastante e sentia dores no corpo e zero vontade de fazer atividades básicas como pentear os cabelos. Foi quando eu me toquei de que eu realmente precisava ser acompanhada por um profissional”, lembra.

 

 Foto: Tatiane Souza

 

Segundo a psicóloga Graziele Machado, a depressão é uma doença que exige acompanhamento sistemático, desde que tenha sido feito um diagnóstico correto que leve em consideração todos os fatores envolvidos. Com isso, a profissional afirma que se pode esperar uma melhora significativa do quadro com os métodos de tratamento e medicações. “Fazendo isso, o prognóstico é certeiro”.

O começo do tratamento de Gabriela não foi fácil. Os sintomas ficaram mais intensos e os remédios a deixaram mais agitada do que já era. Ao longo do processo, algumas mudanças ocorreram até chegar ao que está hoje. “Quando voltei ao médico, ele me receitou outra medicação, já que não me dei muito bem com a primeira”, rememora.

Durante esse período de tratamento, Gabriela começou a praticar exercícios físicos e sentiu melhoras na qualidade de vida e no sono, algo que não ocorria antes, já que ela utilizava a hora de dormir como uma forma para fugir da realidade. “Desde janeiro, pratico atividade física, inclusive pilates que ajudou e ajuda a controlar minha respiração e meus momentos de crise. No começo, não dava nada às aulas, sentia dor e tudo mais. Até hoje sinto.  Depois, percebi o quanto aquilo me fazia bem”, garante.

 

Redes sociais x Depressão

Além da prática constante de atividade física, ela também passou a utilizar as redes sociais a favor dela. Levando em conta que as redes potencializam a depressão, pelo fato de os internautas acharem que a vida do outro é perfeita e que não há problemas. Entretanto, elas são o nosso porta-retrato moderno. Ou seja, quando há algum tempo as pessoas guardavam as fotos em um álbum, elas só deixavam registrado os melhores acontecimentos – e nas redes não é diferente. O que ocorre é que um número maior de usuários tem acesso a elas e podem interagir.

 

 Foto: Tatiane Souza

 

“A comparação social on-line tem levado a pensar que o outro tem uma vida muito melhor, trazendo ao indivíduo uma sensação de baixa autoestima, insegurança ou frustração. Existe uma linha tênue entre o uso abusivo delas e a depressão. Por outro lado, há pessoas que, por apresentarem a doença, refugiam-se nas redes sociais para criar vínculos de amizade que não conseguem estabelecer fisicamente”, explica Graziele.

 

Recentemente, uma medida adotada pelo Instagram, no Brasil, foi a ocultação dos likes nos perfis dos usuários – isso não significa que não terá mais, mas somente o dono do perfil poderá ver a quantidade de curtidas nas fotos, o mesmo que ocorre nos stories. O Brasil não é o primeiro país a passar por esse teste. No Canadá, a mudança já ocorre desde maio de 2019.

De acordo com a psicóloga Graziele, essa medida pode ajudar de forma positiva. No entanto, toda mudança no começo é ruim e em alguns casos gera dor. “Pensando pela saúde mental, não terá nada de negativo, as pessoas vão começar a viver a vida, sem concorrência, sem cobrança, tirando o peso e a pressão das costas”, explica.

No Instagram, Gabriela passou a escrever sobre ansiedade e depressão, como forma de informar as pessoas que não tem conhecimento sobre o assunto e expressar o que ela sente. “É assim que eu me sinto melhor. Então, o ideal é a pessoa encontrar algo de que goste de fazer”. Ela diz que o importante é tentar transformar algo ruim em bom.

Mesmo utilizando algo que pode lhe fazer bem, ela conta que se expressar nas redes também gera nela uma sensação ruim, de desconforto. “É estranho, mas esperar uma resposta de uma pessoa na rede social ou uma curtida é uma sensação horrível. Esperar é uma palavra que não existe no vocabulário de um depressivo e ansioso”. Gabriela afirma que controlar o acesso às redes sociais é importante, mas ela confessa que é escrava delas, principalmente do Instagram.

Com a tecnologia, novas profissões e diferentes maneiras de se comunicar surgiram, entre elas, a profissão de Digital Influencer, que acaba tornando-se uma figura pública. Mas tem seus perigos. Entre os famosos, temos vários casos, como: padre Fábio de Melo, padre Marcelo Rossi, Paula Fernandes, Jim Carrey, Demi Lovato, Ana Júlia Dorigon e muitos outros. O mais recente foi o do maior youtuber e comediante do Brasil, Whindersson Nunes, que ficou afastado dos palcos por três meses. No entanto, nem todos conseguiram passar por essa fase, como é o caso do ator e comediante Robin Williams, que tirou a vida e pegou todo mundo de surpresa, em 2014.  O outro foi o da Digital Influencer Alline Araújo, que se matou após se casar consigo mesma depois de ser abandonada pelo noivo às vésperas do casamento. Essa atitude acabou viralizando na internet e dividindo opiniões, o que fez com que ela tivesse muitos feedbacks negativos de pessoas achando que ela só queria aparecer.

 

Empatia

No mundo em que vivemos a falta de não se colocar no lugar do outro, entender a dor do próximo se torna complexo. É a partir daí que os julgamentos começam a aparecer. Depressão é coisa séria. “Não é falta do que fazer, muito menos falta de Deus. Não é para chamar atenção. Sugiro que pesquisem mais sobre até para acudir um depressivo ou depressiva em crise”, aconselha Gabriela. Muita gente, assim como Gabriela não quer demonstrar fraqueza na frente de outras pessoas, mas quando chega em casa, desaba. “Uma boa dica é perguntar: — “o que eu posso fazer para te ajudar”. Prefira isso em vez de: “— faça isso! Isso é falta do que fazer”, “— procure uma igreja”, sugere.

Durante todo o tratamento, a família e amigos são essenciais tanto para apoiar quanto para estimular a fazer o tratamento. “É importante não julgar a pessoa, pois em muitos casos a depressão possui mais sintomas internalizantes que não são perceptíveis de forma externa:  evitar uma postura de julgamento moral em relação a doença, buscar apoiar a pessoa e estimular a prática de comportamentos saudáveis”, comenta o especialista Roney Barata.

 

Formas de prevenção

A prevenção pode ser feita com algumas medidas, tais como atividade física diária, técnicas de relaxamento, rituais religiosos, arte terapia, lazer, qualidade e higienização do sono, alimentação saudável e balanceada, prevenção e cuidados de outras doenças físicas.

 

 

Revista Evoke

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