A dama do rádio

Em homenagem a Lúcia Garófalo, a Revista Evoke relembra entrevista com radialista e empresária na edição 9

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Basilia Rodrigues
Entrevistas, Notícias
27/09/17 15:47

Em 1968, uma excursão com amigos de faculdade a levou para vários lugares, como a capital federal. “Me arrepio ao lembrar do dia que conheci Brasília. Vi toda arquitetura. Depois fiquei mais apaixonada ainda pelo contato com pessoas de todo Brasil e de fora, pelo nível intelectual que era a UnB naquela época”. De volta ao interior paulista, numa conversa com a mãe, ela falou da vontade que tinha de ir embora para Brasília acreditando que a mãe a seguraria até que ela desistisse da ideia. Mas não foi isso que aconteceu. “Ela não gostou muito não. Mas depois minha mãe virou pra mim e disse ‘eu pensei bem, você já tem seu diploma, sua independência. Se você quiser… ‘”. O desprendimento da mãe deu calafrios em Lúcia. A decisão naquele momento era só dela.

A jovem se despediu da vida mais simples e foi arriscar no cerrado. Não queria se casar cedo. Achava que ia perder a liberdade. Deu aulas de História e outras matérias didáticas em Sobradinho, Planaltina. “Eu curto tudo o que eu faço. Um dia, dei aula debaixo de uma árvore para os adolescentes”, conta sorridente. “Achei aquilo tão ecológico, tão bonito”. Depois ela foi para a Escola Normal de Brasília. “Foi a melhor experiência em educação em Brasília, sem dúvidas. Era um grupo único de professores”, diz. Tendo os pais como seus maiores professores, Lúcia aprendeu valores essenciais: “cidadania, solidariedade, respeito ao próximo, se você puder ajudar, ajude. Eu só aprendi mais tarde que as pessoas precisam ter um pouco de defesa”, pondera.

Um mundo utópico, mas tão bom de ser vivido, que foi mágica a união de dois corações com os mesmos sentimentos. Lúcia e Mário Garófalo tinham 25 anos de diferença de idade. Quando ela entrou naquele fusquinha, não teve escapatória. Ela tinha planos de ir para Austrália, mas, por causa dele, ficou no Brasil. Não demorou muito, o interesse virou namoro. Eles não tiveram filhos mas construíram juntos um legado de 36 anos: a Super Rádio FM. “Genialidade e loucura são muito próximas para mim. Um dia ele chegou com a ideia de concorrer a uma concessão de rádio, eu lembrei da minha mãe e disse ‘se você quiser…'”, traz a recordação.

Levada pelas mãos de seu marido, Lúcia virou símbolo da rádio. É dela a voz marcante que diz “a diferença é a música”, frase que define a emissora. “Um dia, o Mário (seu marido) me deu o texto, me jogou dentro da cabine e gritou ‘fala!’. Os métodos, às vezes, assustavam um pouco (risos). Eu era tímida. Mas tinha que fazer”. Foi difícil no início. O casal conseguiu um financiamento no banco. As válvulas usadas para colocar a rádio no ar queimavam com frequência, a programação ainda estava em construção, era preciso dedicação e criatividade. “Saía daqui meia noite, felizmente havia uma baiana com acarajé e café aqui na torre”. Certa vez, o funcionário responsável por ligar o transmissor faltou e Lúcia não esquece da sensação do dia em que fez a rádio funcionar sozinha pela primeira vez. O salário de funcionária pública de Lúcia foi essencial para equipar boa parte desse sonho. Foi assim na chegada do CD, por exemplo. “Ele estava em Manaus, viu aquilo, e disse para o dono da loja que queria comprar, que não tinha dinheiro, mas que ele mandasse para Brasília porque a mulher dele iria pagar (risos). E o homem aceitou. Ele tinha uma credibilidade muito grande”, diz.

Apesar de tudo, o que diziam que duraria três meses, hoje tem mais de três décadas. Embaixadas como da Alemanha e da China passaram a encaminhar, e encaminham até hoje, músicas para tocar junto com as músicas brasileiras. Ouvintes de vários cantos do país e do mundo queriam saber que rádio era aquela. A rádio é a mais ouvida por ministros e autoridades em Brasília. “Criamos um grande nicho cultural. Eu lembro que ao decidir o que seria a rádio, uma pessoa disse para o Mário, ‘Garófalo, você está antecipando uma tendência de 30 anos'”, lembra. Idealizador, vibrante, ele queria mais, e decidiu colocar um piano no shopping para que as pessoas pudessem ouvir a boa música. Até hoje, o programa é gravado no Conjunto Nacional e vai ao ar nas ondas da Super Rádio FM.

 

  • Nós da Revista Evoke lamentamos profundamente a partida dessa grande mulher.
  • Para conferir a entrevista completa e conhecer a história de amor de Lúcia e Mário clique aqui.

 

Foto: André Zimmerer

 

Revista Evoke

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