Amigos ajudam e cadeirante volta a fazer trilha após 11 anos

A aventura foi possível graças a uma cadeira especial

https://revistaevoke.com.br/wp-content/uploads/2017/07/AZM_4542site.jpg
Rinaldo de Oliveira
Notícias, Só Notícia Boa
14/05/18 16:46

Um cadeirante estreou uma cadeira adaptada e voltou a fazer trilha depois de 11 anos. A aventura foi possível graças a uma cadeira especial, comprada por amigos do grupo Trilhas na Serra, depois de uma vaquinha online.

Desde que ficou paraplégico em um acidente de carro, em 2008, Gustavo Deister se viu limitado a fazer várias coisas.

Muitas delas ele foi superando com o tempo. Mas teve uma que ele achou que nunca mais fosse conseguir fazer: trilha! Mas, felizmente, agora deu certo.

História

Aos 33 anos, Gustavo é independente. Mora sozinho, dirige, pratica canoagem, crossfit e tem paixão pelo poker.

E foi lá que ele conheceu o Diego Cabral, guia do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, em Petrópolis, RJ. Ele faz parte do grupo Trilhas na Serra e, apesar de estarem sempre juntos, esse papo entre eles nunca tinha rolado.

“Um dia eu cheguei e perguntei quando ele ia me convidar pra fazer uma trilha. No mesmo dia a gente combinou uma data e assim foi!”, contou Gustavo ao SóNotíciaBoa.

O grupo já tinha feito várias convocações, mas ainda não havia encontrado pessoas que tivessem vontade de embarcar nessa aventura.

Geralmente a proposta era sempre para trilhas leves. Mas a ideia de Gustavo era subir o Morro do Açu, uma trilha de aproximadamente 8 horas, com nível de dificuldade alto.

“Quando o Diego me contou que a ideia era subir o Açu a gente fechou na hora”, explicou Jonathan Magalhães, moderador do grupo Trilhas na Serra.

A cadeira Julietti

Pra que essa missão fosse possível, era imprescindível uma cadeira especial. Cadeira de rodas do dia a dia e trilha não combinam.

Mas esse não era um problema. No ano passado o grupo Trilhas na Serra trouxe para Petrópolis o projeto Montanha para Todos, desenvolvido por um casal de São Paulo. O objetivo é permitir o acesso de pessoas com necessidades especiais às montanhas da cidade imperial.

O grupo abriu uma vaquinha na internet para comprar uma Julietti, cadeira adaptada para o montanhismo.

Ela tem uma única roda e funciona como uma maca. A cadeira foi desenvolvida especialmente para a locomoção de pessoas com deficiência em trilhas.

“Uma parte do dinheiro foi arrecadada na internet. Pra completar a gente saiu pedindo. Temos alguns padrinhos que ajudaram muito, fizemos também ação no calçadão do Cenip, rifa e assim compramos a Julietti”, conta Jonathan.

A cadeira chegou em Petrópolis em fevereiro, no mês do aniversário de 5 anos do grupoTrilhas na Serra. E nesta semana o Gustavo fez a estreia da cadeira na trilha.

Missão Montanha

Na última terça-feira, 08, dezessete amigos se juntaram na missão de ir até a Pedra do Açu, na
famosa travessia Petrópolis x Teresópolis, a 2245 metros de altitude. Mas o tempo não colaborou.

“Ainda na portaria do Parque a gente viu não ia dar pra subir até o Açu. Tava na cara que ia
chover. Então colocamos uma nova meta, a cachoeira do Véu da Noiva”, contou Gustavo.

Esse destino já era conhecido de Gustavo, ele costumava curtir a cachoeira com os amigos
antes do acidente. Mas agora o desafio era bem diferente.

Para ajudar com a cadeira, 6 pessoas se revezavam. Quatro carregando a cadeira e mais dois
dando apoio, na frente e atrás.

Os outros estavam com as mochilas e a cadeira de rodas que Gustavo usa do dia a dia. Foram várias paradas no caminho. Em duas horas chegaram ao destino.

“A subida foi bem tranquila. Quando chegamos no Véu da Noiva o Diego perguntou se eu
queria subir mais e eu topei ir além”, disse Gustavo.

Mochilas nas costas, cada um no seu posto e quarenta minutos morro acima até chegar à
Pedra do Queijo, destino final dessa expedição, mas que seria apenas o início da aventura.

Durante a parada pra descansar antes da descida, começou a chover e o grupo teve que se
apressar!

“Pra descer eu senti mais medo. Era muito íngreme e a cadeira ficou muito inclinada várias
vezes. Eu cheguei a escorregar, mas não caí. A descida debaixo de chuva foi aventura mesmo,
mas deu tudo certo e estamos aqui sãos e salvos e já pensando na próxima”,

O grupo considera que esse foi um teste pra conseguir fazer o trajeto completo até a Pedra do
Açu.

A ideia deles é abrir uma vaquinha na internet pra conseguir arrecadar dinheiro para essa
aventura.

“Para entrar no Parque Nacional e ir até o Açu a gente tem que pagar e pra um grupo grande acaba ficando muito caro. Além disso precisamos também de sacos de dormir e
comida”, explica Gustavo.

O grupo Trilhas na Serra oferece o serviço de guia pelas trilhas de Petrópolis em troca de
doações de alimentos e agasalhos que são doados para instituições de caridade da cidade.

A cadeira Julietti está sob responsabilidade do CEP, Centro Excursionista Petropolitano, e os
cadeirantes que tiverem interesse em se aventurar devem entrar em contato pelo site do
Trilhas na Serra  ou pela página no Faceboook.

“Eu achei que nunca mais ia voltar a fazer trilha na minha vida. Foi muito incrível e agora eu
quero ir mais longe e cumprir a missão de chegar até o ponto mais alto, a Pedra do Açu,”
finaliza Gustavo.

 

Foto: Anderson Vieira

 

Foto: Anderson Vieira

 

Projeto Montanha Para Todos

A ideia de uma cadeira de rodas especial para trilha partiu de um casal de São José dos Campos, em São Paulo. O modelo foi desenvolvido por Guilherme Simões e pela esposa dele, Juliana Tozzi, depois de uma história de superação.

Eles sempre foram fãs de montanha, mas precisaram parar por um tempo porque Juliana teve
câncer de mama. Essa batalha foi vencida e logo depois eles resolveram ter um filho.

Durante a gestação Juliana foi diagnosticada com Degeneração Cerebelar Paraneoplástica. Uma síndrome
neurológica rara, que afeta o sistema nervoso e impedia que Juliana voltasse às montanhas.

Foi então que Guilherme prometeu à mulher que daria um jeito de levá-la, apesar de todas as
adversidades.

Depois de uma mobilização com amigos mecânicos e empresários, Juliana ganhou uma cadeira desenhada especialmente pra ela, que foi batizada de Julietti, homenagem à Juliana. A cadeira é produzida no Brasil e é a esperança para os cadeirantes amantes das trilhas.

Gustavo e a cadeira Julietti Foto: Anderson Vieira

Texto originalmente publicado em Só Notícia Boa.

 

 

Revista Evoke

Acompanhe todas as novidades pelo instagram.