15 anos de mais negros na universidade

Desde o surgimento das cotas raciais até hoje, milhares de alunos conseguiram lutar contra o preconceito

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Basilia Rodrigues
Lifestyle, Tonalidade
13/08/18 17:15

Foi dada a largada. Na corrida, dois adversários da mesma idade, ambos com ensino médio, cheios de sonhos e o mesmo objetivo: conquistar uma vaga na universidade. Mas isso não tem nada a ver com uma disputa saudável em que um consegue e o outro não. É mesmo um jogo roubado em que os opositores se diferenciam pela cor da pele. O jovem branco tem mais chances de conseguir a vaga do que o jovem negro – os números comprovam. Teria um estudado mais do que o outro? Não necessariamente.

Mesmo sendo a primeira instituição federal pública a adotar o sistema de cotas, a Universidade de Brasília (UnB) passou a ter mais alunos negros do que brancos somente após 15 anos de existência da política. Isso ocorreu um dia desses, em 2017. E, nessa maioria negra, estão incluídos alunos que também ingressaram sem as cotas. A instituição pública custeada com verbas públicas não é o caminho natural de quem estuda em escolas públicas, mas de quem tem mais oportunidades de se formar em uma escola particular. Não é coincidência que justamente esse aluno seja branco. No segundo semestre de 2004, cerca de 450 alunos tiveram direito a reserva de 5% do total de vagas, e um termo se popularizou: cotista.

Foto Divulgação

Iniciativas de alunos que passaram pela universidade, como a jornalista Aida Feitosa, foram importantes para chegarmos à situação de hoje. Em 1997, ela entrou na faculdade quando as cotas ainda não existiam. Em 2001, aos 21 anos, criou o movimento EnegreSer, depois que um grupo de estudantes negros sofreu racismo em uma festa da UnB. “Quando o debate começou, tinha muita resistência. Foi um embate. A sociedade era muito contrária e houve todo um trabalho de convencimento da importância das cotas para a sociedade brasileira e a universidade em si”, afirma.

Estudantes denunciaram na época o conflito recorrente na própria instituição de pessoas que defendem a meritocracia, ou seja, que a vaga na universidade seja para quem tem mérito em passar no vestibular e não pra quem entra por meio de cotas. O movimento discutia não só a questão das cotas mas várias nuances do preconceito, inclusive se as pessoas negras conseguiam se reconhecer assim, ou seja, a autodeclaração de ser negro.

A partir de discussões, como as do EnegreSer, o governo federal decidiu fazer um importante ajuste no sistema de cotas, em todas as universidades do país. Além de racial, as cotas passaram a ter critério social. Ou seja, além do recorte pela cor da pele, a reserva de vagas também é para alunos carentes. Por isso, há casos de estudantes – mesmo que brancos – que conseguem passar na UnB por meio das cotas porque estudaram em escolas públicas. Nos dias atuais, Aida trabalha no Ministério do Meio Ambiente e há pouco tempo voltou para fazer mestrado na UnB. Ela vê que o tratamento dado aos alunos cotistas mudou em comparação com o início. “Não dá pra saber quem é cotista e quem não é. Não senti que eles sejam tratados de forma diferente”, afirmou à Evoke.

 

Sutil e covarde

Apesar do convívio entre os alunos ter evoluído muito nesses 15 anos, a vigilância é constante porque o preconceito ainda existe na universidade. A estudante Lorena Monique, conhecida como Neggata nas redes sociais, criou a campanha “Ah branco, dá um tempo!”. De tanto ouvir frases racistas, ela reuniu o relato de vários alunos da universidade numa demonstração de protesto. “Muitas vezes a gente escuta ‘você tem sorte de estar aqui porque cotista não precisa estudar’, ‘quantas vezes já te chamaram de macaco?’, ‘eu não sou racista, eu tenho até amigos negros’. O racismo no Brasil é sutil, covarde, muitas vezes as pessoas reproduzem e nem sentem”, afirma em suas palestras. Ela entrou na UnB, em 2013, por cotas.

Lorena Monique, Neggata.

De 2004 a 2018, 7 mil 600 negros ingressaram por meio de cotas na UnB. Mas apenas cerca da metade, ou seja, 3 mil e 400, realmente concluiu o curso.

 

O caminho de um doutor negro

Quando a política de cotas já tinha 4 anos, o estudante Derson Maia ingressou no curso de gestão ambiental, no campus de Planaltina. Era 2008. Foi quando a UnB começou a expandir cursos justamente para cidades satélites mas na turma de Derson só havia 4 pessoas negras, contando com ele, entre 45 estudantes. No sexto semestre, ele decidiu mudar de curso, foi para Ciência Política mas pouca coisa mudou no perfil dos alunos. Eram 3 negros para uma turma com cerca de 40 alunos. “Muito reduzido. Ainda era bastante crítica a representação negra, mesmo com a política de cotas. Esse processo estava avançando lentamente”, lembra.

Hoje, Derson está cursando Doutorado, vai virar doutor, como se diz por aí. Ele é exemplo de que não basta só oferecer uma vaga de estudos a um aluno negro, é preciso criar oportunidades para que ele se mantenha no ambiente acadêmico e construa seu espaço no mercado de trabalho. Isso deu certo graças a participação em outros editais da própria UnB para desenvolver pesquisas, conseguir bolsa em dinheiro para se manter no mundo dos estudos, já que a realidade da periferia não é bem assim.

Foto: Matheus Alves

“O pouco que se ganha já é muito, isso ajuda até a dirimir conflitos. Muitas vezes os pais não apóiam a gente estudar para um vestibular, ficar anos tentando. Eles acham que a melhor forma de ajudar a família é estar num caixa de supermercado, estar em profissões que ganham pouco e que não possibilitam um plano de carreira ou perspectiva de futuro, mas atendem situações do presente, como pagar uma conta de água, luz. Eu comecei a mostrar para os meus pais que era importante estudar”, diz. “Hoje a gente não discute só a ascensão e a criação de oportunidades para a população negra. Hoje a gente discute também o papel da formação desses cursos de graduação. Cadê os professores negros dessa universidade?”.

O campo de pesquisa de Derson espelha o que ele mesmo vive em sua vida pessoal e profissional: representatividade negra. Além de estudante, atualmente, ele é servidor público num órgão federal estratégico, a Escola Nacional de Administração Pública (Enap) e quer ser professor. Ele também usou cotas para ingressar no serviço público. Também lá, vê que existem poucas pessoas negras. Não há outro negro no setor em que ele trabalha. “Ter negros, como eu, no serviço público faz uma grande diferença de como a administração pública pode dar conta de atender essa população. O olhar de construção do serviço público tem um ganho com a população negra. Não é por acaso que é a população que mais depende do serviço público no país”.

Todos esses relatos evidenciam que a sensação incômoda de entrar em um sala, seja de aula ou do trabalho, e não se identificar com as pessoas passa também pela cor da pele.

 

 

Revista Evoke

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