USP descobre moléculas que podem tratar febre amarela

Os testes foram realizados em culturas de células humanas de fígado infectadas pelo vírus causador da doença

Revista Evoke
Notícias, Só Notícia Boa
19/02/18 15:51

Pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP identificaram moléculas com potencial para tratar a febre amarela. Os testes foram realizados em culturas de células humanas de fígado infectadas pelo vírus causador da doença.

O artigo  “Drug repurposing for yellow fever using high content screening” descreve a pesquisa e foi publicado na repositório Biorxiv, que armazena artigos antes de sairem em revistas especializadas. Das moléculas mais promissoras, duas delas também tiveram eficácia contra o vírus da dengue. A pesquisa foi realizada a partir da estratégia High Content Screening (Triagem de Alto Conteúdo).

Segundo Lúcio Freitas-Junior, este é o primeiro trabalho voltado para febre amarela que utiliza esta tecnologia. A estratégia é conhecida como “reposicionamento de fármacos” e pode encurtar em vários anos a chegada de medicamentos do laboratório até as farmácias.

Os testes

Os pesquisadores infectaram células humanas de fígado com o vírus da febre amarela.

Eles testaram cada um dos 1.280 compostos para verificar quais matavam o agente causador da doença sem danificar as células.

Após os testes, eles conseguiram identificar as moléculas com potencial terapêutico para combater o vírus.

Dos 1.280 compostos, 88 deles (6,9%) reduziram a infecção em 50% ou mais.

Economia na fabricação de Medicamento

O estudo traz resultados inéditos ao localizar compostos que podem ser utilizados em vários casos, incluindo febre amarela.

A partir daí abre-se a possibilidade da criação de fármacos para o tratamento dessa doença que hoje representa um problema de saúde pública brasileira e alarma a comunidade internacional.

E o melhor é que a pesquisa já foi testada o que economiza tempo e dinheiro.

“A partir da estratégia de reposicionamento de fármacos, quando você começa a partir de algo que já foi testado e que já existe uma indicação boa, você está encurtando esse tempo para 2 a 4 anos, a um custo reduzido”, afirma o cientista.

“Essa pesquisa pode representar uma economia brutal de tempo e recursos na descoberta de um tratamento para a febre amarela”, destaca Freitas-Júnior.

O trabalho foi desenvolvido pelos pesquisadores do ICB Carolina B. Moraes e Denise Pilger; professor Paolo Zanotto, do Departamento de Microbiologia; Sabrina Queiroz e Laura Gil, da Fiocruz; além de Freitas-Júnior.

De acordo com Freitas-Júnior, a ideia é desenvolver uma alternativa para a vacina da febre amarela.

“É muito relevante que a pesquisa tenha sido feita no Brasil e 100% na USP”, destaca.

“Agora, o próximo passo é reunir outros cientistas em um consórcio de diferentes grupos de pesquisa para trabalhar com os dados obtidos, que são inéditos. Temos excelentes moléculas e trabalhando dessa forma diferenciada vamos conseguir agregar valor ao que fazemos. O foco é o produto final, fazer algo que, de fato, seja diferenciado para o paciente”, explica.

Próxima fase

O próximo passo é modificar as moléculas para aumentar a potência contra o vírus e diminuir os efeitos tóxicos sobre as células.

Segundo Freitas-Júnior, caso alguma das moléculas que se mostraram promissoras para tratar a febre amarela necessite ser modificada, os cientistas estarão agregando valor a elas e, com isso, poderão surgir algumas patentes.

Além do ensaio de febre amarela, o grupo de pesquisa também desenvolveu ensaios de triagem para os micro-organismos causadores de zika, dengue, chikungunya, leishmania e Chagas, entre outros.

O professor Paolo Zanotto reforça a importância do trabalho, que proporcionou uma grande quantidade de moléculas já utilizadas para outros propósitos terapêuticos e, portanto, já testadas e aprovadas em humanos por demorados e rigorosos ensaios clínicos.

“O estudo conduzido por Freitas-Júnior permitiu encontrar compostos com atividade antiviral para febre amarela e este sucesso implica a possibilidade de termos, pela primeira vez, a capacidade de interferir no processo infeccioso e salvar vidas”, afirma o virologista.

 

Texto originalmente publicado em sonoticiaboa.

 

 

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