Superando um jogo que já começa desigual

Que o preconceito existe, isso é fácil de perceber. Mas e quando o preconceito existe dentro do personagem principal? Isso é fácil de perceber?

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Basilia Rodrigues
Bem Estar, Tonalidade
30/01/18 13:28

Que o preconceito existe, isso é fácil de perceber. Que o preconceito pode estar dentro de quem sofre preconceito, parece uma característica do personagem principal que, como muito figurante, nem sempre é percebida. E talvez nunca seja notada por ele mesmo.

A historia aqui tem realmente um personagem. Ele tem 30 anos, mora em Ceilândia, é negro, tem orgulho de si. Nem por isso deixa de ser uma pessoa preconceituosa. Mas por quê? Com quem?

Os preconceituosos reúnem algumas características similares. Eles classificam, selecionam, rotulam e são seres humanos. Ou seja, podem ser qualquer um, até a gente.

“Por que vou fazer isso, se isso é coisa de branco?”, “por que vou fazer isso, se isso não é coisa de negro?”. Frases do tipo só servem pra definir, de forma equivocada, que há coisa de branco e coisa de negro. Consequentemente, dá pra entender que há coisas que não são de branco e coisas que não são de negros. Mas as tais coisas separadas se misturam, se confundem, e podem fazer muito mal para quem é o alvo do preconceito.

Ele, o nosso personagem, ajuda a comunidade. Uma das palavras que ele mais gosta de falar: c-o-m-u-n-i-d-a-d-e. Vamos ressaltar o sentido: é sobre aquilo que é comum entre si. Carismático, inteligente, descolado, virou líder c-o-m-u-n-itário. Seu lado bom inspira, agrega. Organiza projetos destinados a jovens que levam música, cultura, assistência, afetividade. Seu outro lado afasta, aumenta o abismo entre os diferentes. Reduz o combate ao preconceito ao reforçar esteriótipos.

 

Dessa forma, o jovem do gueto não é autorizado nunca a evoluir porque acredita que existem as coisas dele, e os espaços inacessíveis que são só dos outros.

 

“Mais eu não dou valor a isso”, responde ironicamente ao ser alertado sobre o erro entre “mas” e “mais”. “Mais é advérbio de intensidade. Mas é advérbio de adversidade”, seu interlocutor insiste. “Mais eu moro em Ceilândia e é assim que o jovem pobre da favela fala”, resiste. “O povo de Ceilândia é bom, é humilde, trabalhador, e não precisa saber da diferença entre ‘mas’ e ‘mais’, entendeu?”, complementa.

Não. Não entendi. Como uma coisa exclui a outra? Se a pessoa fala corretamente, ela é ruim, pouco humilde, desocupada? Seguir a gramática é fazer menos parte dessa comunidade? Assim como sabemos que o preconceito existe, sabemos que a falta de qualidade da educação no país também é notória. Exigir que um adolescente com problemas na escola ou em casa – ou nas ruas – saiba a gramática do início ao fim é algo mesmo desproporcional. Ele está preocupado com os pais brigando, a falta de comida, talvez já tenha noção das contas atrasadas, pode não ter tido incentivo pra estudar. Porém, desejar que esse mesmo adolescente tenha oportunidades é o mínimo pra equilibrar o jogo dos desiguais.

Mas, atenção. O nosso personagem, esse mesmo que insiste no erro, sabe muito bem a diferença entre “mas” e “mais”. Então ele fala errado porque quer, porque inventou uma justificativa pra si.

Antes de completar 20 anos, ele passou no vestibular da UnB. Era cotista e ajudava outros jovens de baixa renda – essa atuação foi parte de sua estréia nos movimentos sociais. Garoto de Ceilândia, estudante de uma das melhores universidades públicas do Brasil. Mas anos depois, decidiu abandonar a UnB. “Eu não queria ser como eles”, afirma. No caso, “eles” eram os estudantes que não moravam na periferia. “Como?”, todos perguntam. “Imbecis”, responde. “Mas formado você poderia ajudar mais a sua comunidade”, insistem. “Lá vem essa besteira. Talvez um dia eu volte”, disfarça o lamento com um “sei que consigo”. Mas uma pergunta o irritava: “E por que não volta?”. A resposta era uma só: “Porque eu não preciso disso para viver com meu povo em Ceilândia”. Classifica, rotula, se diminui. E ao dizer isso, leva consigo toda a comunidade que se orgulha em ajudar. Mas não vê.

O jogo começa desigual. Tem o jovem do gueto e o jovem do centro. No caso de Brasília, tem o jovem do plano piloto. Se não valorizar chances, nenhuma vai te valorizar. Nesse jogo, quem está com vantagem, corre. Das boas escolas, o destino de quem teve mais acesso à educação, saúde e conforto, é um só: chegar mais facilmente aos bons empregos. Quem parte com desvantagem, também corre… dobrado: não necessariamente pra passar na frente mas pra equiparar a posição. Esse cenário torna ainda mais preocupante a revolta de um jovem do gueto que se recusa a falar corretamente o “mais” e o “mas” para se parecer menos com os outros e mais com o que ele entende de “jovem da Ceilândia”.

Dessa forma, o jovem do gueto não é autorizado nunca a evoluir porque acredita que existem as coisas dele, e os espaços inacessíveis que são só dos outros.

 

Este texto foi originalmente publicado no site Favela Potente.

 

 

Revista Evoke

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