Música e segurança

Precisamos de Lennys

Revista Evoke
Notícias, Segurança
30/04/18 16:51

O que uma coisa tem a ver com a outra? Música e segurança, aparentemente, não se conectam. Aparentemente. Por que tratar disso se violinistas não são policiais? Desde quando arranjo musical se mistura com operação policial? Aparentemente tocar o bumbo não se confunde com prender bandidos. Mas será que realmente não há nada em comum entre música e segurança?

Nos últimos trinta e dois anos, eu tenho lidado com os dois temas muito intensamente. Quando gravei para o Discovery Channel em 2013, fizeram a pergunta de sempre: “Sair de DJ a consultor internacional de segurança foi muito complicado?”. Fui econômico: “O que vem fácil, vai fácil!”. Em pouco mais de cinco anos já comandava operações de alto risco no BOPE, o Batalhão de Operações Policiais Especiais. Depois de duas décadas, me dividia entre o trabalho local e o compartilhamento de políticas públicas, táticas e estratégias pelas Américas, Ásia e Europa.

Nesse mesmo período, os anos nos trouxeram perdas insubstituíveis nos dois campos. E você sente isso nos seus ouvidos e em seu cotidiano, nas 24 horas do seu dia. 24 horas mesmo. É muito estranho saber que não temos mais o nosso Renato Russo, Michael Jackson, Naná Vasconcelos, Amy Winehouse, Leonard Bernstein. Na mesma proporção, quem imaginaria não poder estar tranquilo na porta da própria casa, em não mais poder apreciar o pôr do sol tranquilamente nas praias do Rio de Janeiro – nosso maior cartão postal. Que haveria atentados na Time Square ou que nos chocaríamos com múltiplas notícias de violência nas escolas de nossos filhos? O que está faltando? Onde  erramos?

A verdade é que deixamos de aplicar na segurança o que não pode deixar de existir na música: HARMONIA. Também conhecida como ausência de conflito, como concórdia e como equilíbrio, essa palavra abraça tanto o artístico como o social. Tudo que é harmônico se reconhece como justo e perfeito. Se reconhece como equilibrado. Esse descompasso em qualquer momento da música ou da segurança significa um problema.

Agora já fica mais fácil perceber que existem coincidências. Música e segurança estão em quase tudo. Acompanham homens e mulheres desde sempre. Os dois são bons para o corpo e para a alma. A primeira, do grego musikē, que significa a arte das musas, organiza som e silêncio tão bem e nos alcança de forma tão profunda, que há tempos é utilizada inclusive como terapia. Ela influencia diretamente sensações e sentimentos de forma imperceptível. Quer ver? Tente assistir a um filme sem trilha sonora. O resultado não será o mesmo.  Outra coisa: me diga que você nunca esteve estressado e falou em algum momento para si mesmo: “Deixa eu escutar uma boa música para ver se melhoro?”.

A segunda é muito parecida. Precisa ter os mesmos requisitos e promove os mesmos resultados. Brevemente diferente, organiza o certo e o errado. Percebemos que sua ausência nos incomoda profundamente e, no filme de nossas vidas, quando a segurança não é sentida, altera cada passo que damos e decisão que tomamos. Perceba que, do local selecionado para adquirir a casa dos seus sonhos, à escola em que seus filhos estudam, esse quesito é um dos primeiros a ser considerado. Nessa escolha, certamente, uma de suas perguntas será “como é a segurança por aqui?”.

Como a música, a segurança precisa ser revestida de conceitos, parâmetros e produzir resultados. Sem isso, existir som não é o mesmo que ter música, como existir instituições de proteção não significa, por si só, ter segurança. É impossível dizer que se ouça uma sinfonia sem que haja um maestro, melodia, bons instrumentos, ensaio e até um local adequado para difusão do som. Quando desejamos nos distanciar de perigos e riscos mas escolhemos economizar em um bom gestor, quando não nos importamos em modernizar as leis, quando descuidamos de boas ferramentas de trabalho para quem está nos defendendo, e quando deixamos de lado treinamento e bom ambiente laboral, não se pode esperar grandes feitos.  Seguindo dessa maneira apostamos em ter como resposta algo bem diferente do previsto para quem busca essa tal de segurança.

Pegando uma carona na música clássica, quem sabe um dia a segurança se valha do exemplo que nos deu Lenny, como era conhecido o Maestro Leonardo Bernstein. Em 1986, ele teve a felicidade de ser chamado para tornar histórica a queda do muro de Berlim e a união das Alemanhas. Juntou o que havia de melhor na música: a Filarmônica de Nova York, a Orquestra de Paris, a do Kirov de Leningrado, e a Orquestra Sinfônica de Londres. Foi inesquecível. Mas só deu certo porque, no momento da execução daquele ato musical, todos sabem que não se pode futucar. Não há espaço para palpite.

Devemos nos esforçar para que um dia tenhamos o mesmo na segurança. Daí será possível comemorar a união de nossos músicos da proteção pública. Só assim voltaremos a ter a sensação de estarmos plenamente seguros e protegidos. E que sejamos maduros o suficiente para não permitir a aparição de futucadores e palpiteiros. Precisamos urgentemente dos maestros que nos devolvam essa tão desejada harmonia.

Definitivamente música e segurança têm pontos em comum.

Mas carecemos de Lennys.

Nosso país permitiu a construção de diversos muros de Berlim. Precisamos derrubar o que nos impede de termos mais segurança.  Garanto que o som da queda dessas barreiras será a melhor música que ouviremos.

 

 

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