“Quer um emprego? Crie um!”

O deputado Joe Valle, presidente da Câmara Legislativa, elegeu alguns desafios que o DF enfrenta em meio a crise

Revista Evoke
Economia, Entrevistas, Notícias
01/05/17 17:41

Em um momento de economia fragilizada e pressões sobre o mercado de trabalho, conversamos com o deputado Joe Valle. Ele reconheceu as dificuldades na relação entre executivo e legislativo locais.

 

EVOKE: O senhor, como empresário, poderia apontar quais hoje são os principais empecilhos para o crescimento econômico do DF e para a geração de renda?

JOE VALLE: O Estado emperra o processo, perdeu a capacidade de conversar com a sociedade. Nas decisões de governo, o setor produtivo não é priorizado. O Estado trabalha para si mesmo. Esse é um problema estrutural, mas temos uma vantagem enorme que é o nosso baixo nível de endividamento. Com isso, podemos captar recursos no mercado para infraestrutura e investimentos essenciais. Precisamos injetar recursos, fazer novos programas e romper com as amarras da velha política, investir em inovação a partir da educação tecnológica para o setor produtivo, pois ele é a mola que vai alavancar todo o resto. Não adianta aumentar a carga tributária, precisamos fomentar a produção para podermos aumentar a base de arrecadação, sem aumentar a carga tributária individual. Precisamos alargar a base para que tenhamos muitos pagando pouco e poucos pagando muito. Temos ainda que investir no Parque Capital Digital, que tem tudo para ser a locomotiva do DF nos próximos dez anos.

 

EVOKE: O governo é o principal culpado pela morosidade de decisões e atos que favorecem o setor produtivo? É preciso um choque de gestão?

JOE VALLE: Não tenho dúvidas que a gestão é fundamental neste processo. Precisamos perenizar a gestão governamental e profissionalizar esse processo.

A cada quatro anos, muda tudo. É preciso haver uma conversa entre a questão dos controles, com o desenvolvimento econômico, social e ambiental. Neste sentido, o desenvolvimento econômico tem que estar atrelado ao desenvolvimento social e ao ambiental porque só assim teremos sustentabilidade. Precisamos de planos de longo prazo para o curto prazo da política. No meu entendimento, esses soluços mandatários e a política partidária são o câncer da gestão pública, que trava todo o processo produtivo e o desenvolvimento da cidade. Essa lógica também contribui para tornar as cidades insustentáveis. São cidades com mobilidade problemática, sem vitalidade comunitária e com muitas formas de violência. Não precisamos apenas de um choque de gestão, mas de uma gestão participativa, construída com a população.

 

EVOKE: As concessões e parcerias com a iniciativa privada são uma boa aposta? Empresários estranharam o fato do governo não ter estabelecido a modelagem do negócio, deixando esta atribuição aos próprios interessados.

JOE VALLE: Não tem o produto milagroso. A solução está na coletividade, no investimento nas pessoas e na realização de um bom trabalho de gestão. E isso não acontece no curto prazo. É iniciar agora e dar continuidade, perenizando o trabalho de gestão para que consigamos resolver esse processo em duas ou três gestões. Se mudar o governo e mudar tudo, vamos levar mais tempo para resolver. Portanto, a solução é investir radicalmente em educação.

 

EVOKE: Quais as ações prioritárias que serão desenvolvidas pela secretaria em 2016, no que diz respeito aos empregos?

JOE VALLE: A primeira coisa é o diálogo. A segunda é perguntar: você quer um emprego? Crie um. Essa frase é do ex-ministro Afif Domingos. Uma das soluções para a crise é trabalhar os micro empreendedores, trabalhar a criação de empregos pelas pessoas e com empreendedorismo, microcrédito e o processo coletivo. Essa renda pode ser por meio de uma especialização, venda de porta em porta, cabeleireiro e outros. Enfim, tudo isso pode ser transformado em profissão de forma legalizada. Essa é a grande revolução. É a revolução do micro e do pequeno negócio. Já nos reunimos com o setor produtivo e queremos reformular completamente as Agências do Trabalhador. Não podemos continuar com essas agências trabalhando apenas para que, em cada uma delas, a cada 100 trabalhadores atendidos, apenas quatro sejam inseridos no mercado de trabalho.

 

EVOKE: E no campo do desenvolvimento social, que também integra a pasta comandada pelo sr?

JOE VALLE: Temos uma política robusta de proteção social nesta cidade. Queremos valorizar o servidor, fazer uma gestão que seja compartilhada e colaborativa com a sociedade civil organizada e as instituições que trabalham nessa área, com a finalidade de cuidar das pessoas que estão na ponta, no local onde o serviço social acontece. Também queremos garantir as políticas públicas já existentes e que elas sejam executadas com excelência. Não queremos inventar a roda , queremos fazê-la rodar com qualidade para que as coisas aconteçam e para que as pessoas sejam atendidas e recebam/percebam a presença do estado.

EVOKE: O senhor é a favor, por exemplo, do incremento ou da criação de novas bolsas aos mais carentes aqui no DF?

JOE VALLE: Isso depende da necessidade. Por exemplo, precisamos acabar com o lixão do DF que absorve de três a quatro mil catadores e teremos problema se houver demora na finalização dos galpões de reciclagem. Nesse intervalo de tempo, pode ser que haja necessidade de criar uma complementação de renda para essas pessoas. Neste sentido, para fazer com que as pessoas saiam da miséria total é necessário continuar com alguns programas sociais. Se vamos criar novos benefícios , isso vai depender da necessidade, o certo é que não retiraremos direitos.

 

EVOKE: O senhor veio do legislativo. O Buriti hoje é refém dos deputados distritais, no que diz respeito às medidas que podem injetar uma dose de ânimo à economia do DF? O que fazer para melhorar a relação entre os dois poderes?

JOE VALLE: Temos uma democracia representativa que os deputados são eleitos e o governador sempre precisará de alianças para se eleger e governar. Essa relação entre legislativo e executivo sempre teve problemas no Brasil. Enquanto continuar nesse formato, teremos problemas. O problema é estrutural , não se resolve no curto prazo. Todos os deputados que estão na Câmara foram eleitos, não tem nenhum nomeado. Eles representam o povo do Distrito Federal, ou não….

 

EVOKE: É mais fácil ser deputado ou secretário?

JOE VALLE: Neste momento de crise, é muito mais fácil ser deputado. Poderia ter ficado na Câmara Legislativa e apenas criticar. É fácil criticar do lado de fora. Algumas pessoas dizem que eu joguei meu futuro político no lixo. Entendo que não adianta ter futuro político numa cidade que não tem presente. Fui para o executivo para somar, ajudar as pessoas e essa cidade. Acredito no governador porque ele é uma pessoa séria, honesta e acho que temos que contribuir. Estou aqui para ajudar a construir.

 

Da redação:

Estevão Damázio