“Precisamos estimular e comprar inovação”

Hugo Giallanza, fala sobre as startups em Brasília

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Basilia Rodrigues
Entrevistas, Notícias, Tech
29/05/17 16:13

O presidente da associação de startups e empreendedores digitais, fala com a Revista Evoke sobre inovação e tecnologia.

EVOKE: Em um mundo globalizado e com um vocabulário cada vez mais amplo, em termos de tecnologia, como podemos caracterizar uma startup? Inovação é um pressuposto básico?

HUGO GIALLANZA: A definição de uma startup é “uma organização em busca de um modelo de negócio repetível e escalável”, sendo que à primeira vista esta definição se assemelha muito com um projeto científico, ao tratar diretamente de uma “busca”, o que predomina a utilização de metodologias para testar hipóteses. Na verdade, trata-se de um empreendimento caracterizado pela transversalidade de um negócio, na maioria das vezes digital, que gera acessibilidade e entrega de serviços por meio da tecnologia.

EVOKE: No site da associação que o sr. preside há o destaque para o apoio inicial, passando pela maturação da empresa, e chegando à independência da mesma. Quando uma startup começa a “andar com as próprias pernas”, tornar-se independente? O que significa esta independência?

HUGO GIALLANZA: O nome da associação faz menção a este processo evolutivo A (associação) + STEPS (degraus ou passos em inglês). Eu costumo dizer que empreender é uma opção de cada um, basta despertar as características empreendedoras do indivíduo. Porém, depois de muita observação nos meus próprios negócios e na convivência com outros empreendedores, compreendi que para ter um projeto em um nível de maturidade relevante em qualquer tipo de negócio – seja ele tradicional ou digital – vai estar sempre atrelado à “maturidade empreendedora” do indivíduo. Ora, vivemos na era da informação, mas as experiências empreendedoras, muitas vezes por uma questão cultural, são represadas. Na Asteps, acreditamos que as experiências – boas ou ruins – devem ser compartilhadas, e desta maneira contribuir para um ambiente colaborativo que se auto retro alimente.

EVOKE: Como está o mercado das startups hoje em Brasília e em nível nacional? Muitas oportunidades?

HUGO GIALLANZA: Atualmente temos cerca de 600 startups em Brasília e na última pesquisa identificamos os segmentos de atuação destas empresas. 53 por cento delas atuam na prestação de serviços e em negócios diretamente para o consumidor. E apenas 5 por cento delas atuam no relacionamento com o governo. Segundo pesquisa da Endeavor, Brasília encontra-se na 5ª posição como cidade empreendedora, na frente de Minas Gerais por exemplo. Esperamos um crescimento de 60 por cento para o surgimento de novas startups até final de 2016. Entendemos que a capital federal possui o estigma do serviço público, mas isto promete mudar, pois estabilidade e altos salários já estão sendo bastante questionados. Precisamos, por outro lado, estimular a inovação do país e em especial de Brasília, fazendo com que o governo compre inovação. Ora, se temos um mundo inovando e o governo só compra tecnologia intencional, por que o empreendedor gastaria tempo pensando em inovar? Por isso, editais como o Inovativa Brasil e Startup Brasil deveriam gerar algum diferencial para inovação brasileira no que tange à participação desta em processos licitatórios.

EVOKE: Em termos de inovação e ousadia, estamos falando então de ir muito mais além do célebre slogan que movimentou o Cinema Novo: “uma ideia na cabeça e uma câmera na mão”?

HUGO GIALLANZA: É bem próximo disso, mas incluímos mais alguns ingredientes a esta receita, como a capacidade de execução, ser bootstrap (utilizar recursos próprios até o máximo de tempo possível), formar uma equipe que entregue o que foi estabelecido e, é claro, ter capacidade de ser resiliente e permanecer andando, não ser casado com o projeto, ou melhor, estar suscetível às mudanças.

EVOKE: E os aspectos jurídicos? Como ficam no caso das startups? Em termos da segurança e confiabilidade dos envolvidos?

HUGO GIALLANZA: Durante estes três anos presenciamos muitos erros e acertos das startups, mas os campeões, sem dúvida nenhuma, são os contratos societários e com funcionários. A legislação brasileira não é moderna suficiente para amparar investidores e empreendedores. Hoje possuímos uma participação na bolsa de valores menor do que a Mongólia e um “investimento anjo” ainda muito tímido, porque a figura do investidor não é protegida, ou seja, se você resolve investir em uma startup é bem provável que seja solidário à empresa. E no quesito proteção da inteligência das startups, deveria ser o INPI, através de um registro de software. O problema, no entanto, é que este tipo de registro só assegura o código, ou seja, se surgisse um projeto igual mas com outra linguagem, este projeto não estaria protegido, porque seria considerado uma proposta distinta. Pensando nisso, a Asteps desenvolveu um modelo de contrato inspirado na lei das S/As americanas. O famoso contrato de Vesting + Mou é um misto de contrato de investimento e garantia de participação nos negócios de uma determinada empresa, com a progressiva aquisição de direitos.

EVOKE: Para finalizar, dicas que o senhor considera vitais e estratégicas para quem está interessado no tema.

HUGO GIALLANZA: Apostar na inovação, em ideias e conceitos e se preparar para captar recursos através de projetos bem redigidos e embasados. A associação, inclusive, se propõe a ajudar os empreendedores a escreverem seus projetos. Nesta última oportunidade tivemos cerca de 69 projetos orientados pela Asteps, sem nenhum custo. Além disso, este ano conseguimos emplacar um edital específico para startups no valor de 5 milhões de reais, depois de um trabalho de 3 anos e de muitas experiência frustradas em submissões em editais de fomento para inovação aqui no Distrito Federal. Este edital irá contemplar cerca de 40 empresas que receberão entre 50 mil e 200 mil reais a fundo perdido. O edital que foi lançado em julho e recebeu cerca de 375 projetos evidencia a demanda reprimida e pujança de um ecossistema clamando por investimentos. No lançamento do edital, na torre de TV, para mais de 190 pessoas, o governador Rodrigo Rollemberg assumiu o compromisso de manter estes editais nos seus 4 anos de mandato.

 

Da redação:

Basília Rodrigues