Marcelo Serrado, mais do que talento

Juiz contra corrupção, ladrão safado, mordomo sensível, delegado inescrupuloso, político ambicioso. Marcelo Serrado vive uma das melhores fases de sua carreira

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Basilia Rodrigues
Entrevistas, Notícias
08/01/18 16:38

Conhecido por personagens marcantes, também na vida real, ele já assumiu um papel intenso: o de cidadão que vai às ruas protestar. Após anos de carreira e muitas experiências,  hoje ele evita falar de política e foca no amadurecimento profissional. A Evoke conversou com o ator que falou sobre carreira e seus personagens.

EVOKE: Dos seus 50 anos de vida, 30 anos de carreira, em que momento você acha que ocorreu a sua guinada como ator?

MARCELO SERRADO: Eu acho que o Crô (mordomo gay de Fina Estampa) foi um personagem que me colocou num lugar interessante. Devo muito ao Aguinaldo Silva (autor de novelas da TV Globo). Também outro personagem importante foi o delegado Nogueira (da novela Vidas Opostas), na TV Record, que foi um divisor de águas. Esses dois têm um ponto em comum, coisas icônicas. O delegado veio primeiro, em seguida foi o Crô.

EVOKE: Como telespectadora, também tenho essa percepção de que o seu divisor de águas foi a passagem pela Record (entre 2005 e 2009).

MARCELO SERRADO: Foi fundamental pra minha vida. Eu digo para qualquer ator: faça o seu melhor trabalho seja onde você estiver porque alguém pode te ver.

EVOKE: Você consegue fazer um vilão muito mau e um cara afetado como o Crô. Como é isso?

MARCELO SERRADO: Eu acho que o trabalho do ator é isso. A gente vai melhorando, se aprimorando, se descobrindo, redescobrindo, tentando se aproximar de coisas mais verdadeiras.

EVOKE: Antes desse divisor de águas, a sua carreira foi marcada por quais papéis?

MARCELO SERRADO: Teve o Edgar, de Anos Rebeldes (1992). O Danilo, de Quatro por Quatro (1994), que era o Dandan. Teve o César, de Por Amor (1997).

EVOKE: Olhando para alguns dos seus papéis recentes, você ficou muito conhecido pelo Crô e o Moro, né? São pessoas totalmente diferentes. Como foi para você receber o convite para interpretar o juiz Sérgio Moro no filme Polícia Federal: a lei é para todos (2017)? O que você tentou imprimir neste papel?

MARCELO SERRADO: Tentei me aproximar dele, o mais próximo possível. Ainda mais por ser uma figura pública que está viva. Tentei me aproximar, espero ter chegado perto.

EVOKE: Você chegou a falar com ele sobre o papel?

MARCELO SERRADO: Cheguei. Estive com ele um dia, almocei com ele. Tentei me aproximar mesmo da persona dele, o jeito de falar, o jeito de agir, como ele pensa. Normal, como qualquer outro personagem. Na verdade, eu diria que meus últimos papéis mesmo são o delegado Carlos Eduardo, do Velho Chico, e o Malagueta, do Pega Pega.

EVOKE: E o Malagueta é um ladrão, né?

MARCELO SERRADO: Ladrão, safado (risos).

EVOKE: E é um ladrão engraçado. É uma figura marginalizada mas ao mesmo tempo muito popular. Tem pessoas que gostam do Malagueta…

MARCELO SERRADO: Eu procuro sempre colocar isso nos meus personagens. Que tenha uma vilania mas que não seja só uma figura linear. Também tem uma humanidade e eu acho que consegui.

EVOKE: Você faz isso como? Refletindo, com técnicas…?

MARCELO SERRADO: Vou trabalhando as camadas dos personagens, estudando e me aprofundando no ser humano. Ser humano é muito abrangente, não é uma coisa só. Pessoas reais, que me aproximo ou coloco mais perto de mim. O trabalho do ator é esse: dar vida.

EVOKE: Com certeza, é o que a gente espera de um ator: que dê vida a um personagem. Mas todo mundo tem seu jeito. Existe um jeito “Marcelo Serrado” de fazer? Como você faz? Em uma semana, você já incorpora um personagem?

MARCELO SERRADO: Cada um tem seu jeito, é algo muito peculiar. Eu estudo, escrevo a gênese do personagem, improviso, faço trabalho de mesa (uma técnica de decorar textos), faço trabalho corporal, me aproximo ao máximo dele.

EVOKE: Já se pegou conversando com algum dos seus personagens? Às vezes se achando mais parecido, por exemplo, com o Malagueta, em outro momento com outro?

MARCELO SERRADO: Tem isso sim. Mas eu procuro sempre não levar o personagem pra casa. Cada caso é um caso. Consigo sim entrar no estúdio e sair de lá Marcelo. Saio fora.

EVOKE: No caso da novela Velho Chico (2015), seu personagem começa com um paletó branco e termina com um paletó escuro, nas últimas cenas. Você sentiu essa transformação?

MARCELO SERRADO: Ali foi uma leitura do Luiz Fernando Carvalho (diretor artístico). O personagem vai ficando mais escuro, mais tenebroso.

EVOKE: Como é a sua rotina como ator?

MARCELO SERRADO: De manhã, eu procuro estudar, ler cenas. Gravo minhas cenas em um gravadorzinho e me preparo pra semana. Nesta semana, eu já me preparo pra semana toda que vem. Gravo a fala do outro (colega de cena) e a minha fala. Essa é a minha forma de decorar ouvindo. Tenho memória auditiva.

EVOKE: Você acha que conseguiu chegar ao patamar que tem hoje como ator incluindo na sua carreira habilidades que não tem a ver só com artes cênicas? Mas tem um pouco de publicidade, administração de carreira… o que nem sempre se aprende em um curso de teatro?

MARCELO SERRADO: Vai muito de cada um. Eu fui me aprimorando como ator, como artista pra chegar onde eu cheguei. Mas eu não cheguei em nenhum lugar. As pessoas ficam dizendo ‘você chegou lá’, mas cheguei onde? Estou tentando cada vez mais me aprimorar, ser melhor no que eu faço.

EVOKE: Compreendo que você trate com reservas a avaliação de que “você já chegou lá”. Não deixa de ser um certo clichê. Mas depois de um tempo na profissão, é natural, você acabar virando um exemplo.

MARCELO SERRADO: Com certeza, consigo sobreviver com a minha profissão, sustento minha família, tenho uma condição de vida. Mas eu batalhei muito pra isso e ao mesmo tempo você não é uma garantia de nada. Você tem que continuar correndo atrás e fazendo as coisas.

EVOKE: É uma pegada empreendedora… Pra quem está literalmente chegando agora, vendo você nas telas da TV e dos filmes, quem acha que “você chegou”, o que você tem a dizer?

MARCELO SERRADO: Desiste (risos). É uma profissão muito dura. Mas se você acha que é fundamental na sua vida, que não tem jeito de fazer outra coisa, então vai fundo. Eu digo que a tenacidade, a perseverança são mais importantes que o talento. Tem gente que não tinha talento, mas quis tanto aquilo que se transformou em um grande artista. Isso vale pra qualquer profissão. Tenacidade é a palavra. Tenacidade e obstinação. Ser obstinado, ser tenaz.

 

O ator Marcelo Serrado, o Crô da novela Fina Estampa da Rede Globo.

 

EVOKE: É impressionante como você deu uma guinada na sua carreira, conseguiu tirar algumas “nuvens” da sua frente e as pessoas conseguem ver melhor as suas qualidades como ator.

MARCELO SERRADO: Certo. E é assim, você tem que estar se aprimorando, e estudando, estudando, estudando até um dia você conseguir. Ou você se abre pra isso, ou você fica fechado e não tem mais para onde ir.

EVOKE: Você usa muito as suas redes sociais?

MARCELO SERRADO: Uso bastante. Bastante Instagram, meu Facebook é fechado… mas já o Instagram uso bastante, posto lá todo dia. Uso pra divulgar trabalho, conversar com os meus fãs, as pessoas que me acompanham… Já tem quase 1 milhão de seguidores. É uma coisa que não posso negar. Esse movimento que está no mundo. Às vezes faço um trabalho, posto alguma coisa, recebo em troca.

EVOKE: E é uma forma de mostrar que o seu trabalho não está restrito à televisão… ali você posta também sobre pensamento político?

MARCELO SERRADO: Basicamente posto coisas relacionadas a trabalho mesmo. Uma peça de teatro, um filme ou o lançamento de um filme de um amigo meu… Coisas comerciais também. Um dia desses, eu postei o comercial de uma fralda, que eu fiz. Sempre pedem para postar depois… eu vou e posto.

EVOKE: Você acaba sendo o seu produtor nas redes sociais?

MARCELO SERRADO: Eu sou o meu administrador. Eu posto, não contrato ninguém para responder não.

EVOKE: Com essa proximidade das redes sociais, você se sente mais criticado ou elogiado?

MARCELO SERRADO: A rede social não tem muito rosto. Aprendi uma coisa de rede social: se não tem réplica, não tem tréplica. Procuro não discutir na internet porque depois a outra pessoa não vai discutir de novo. É um lugar que você tem que aprender a entender.

EVOKE: Você se considera um ativista político ou um cidadão que quer mostrar sua opinião?

MARCELO SERRADO: Eu não me considero nada. Tenho a minha opinião e respeito a opinião de todo mundo. Mas nem falo mais de político. É uma coisa que não me diz nada mais. Há uma desilusão com tudo e com todos. Procuro não falar mais sobre esse assunto.

EVOKE: Reflexo de decepção?

MARCELO SERRADO: Decepção com tudo, com todos. Eles não estão nem aí pra gente. Todos estão juntos. Eu digo para os meus amigos se eles vão brigar por política, que os caras estão se lixando pros outros.

EVOKE: Você tem outra mentalidade comparando com 2014 (ano de eleições em que Dilma Rousseff e Aécio Neves travaram disputa no segundo turno)?

MARCELO SERRADO: Total. Não dá mais não. O buraco é mais embaixo. Estou muito desiludido porque eu acho que existe uma união deles (políticos) muito grande. Maior do que qualquer coisa. O cara que é inimigo, se alia ao inimigo no dia seguinte. E a sociedade fica brigando por causa de A ou B enquanto eles (políticos) não estão nem aí. Você vai discutir com alguém por causa de política? É uma desilusão da sociedade, não é uma coisa só minha não.

EVOKE: Você já está pensando em um novo papel?

MARCELO SERRADO: Eu faço dois filmes agora depois da novela: Crô 2, a bicha volta com tudo (risos)! E faço um longa metragem em São Paulo com direção do Pedro Amorim, com Thati Lopes, do Porta dos Fundos. Fiz o Chacrinha agora, com o Stepan Nercessian. Fiz um filme estrangeiro, gravei na Bahia, vai estrear ainda. Nele, faço um policial de porta de cadeia.

EVOKE: Policial bom ou policial ruim?

MARCELO SERRADO: Sou o policial ruim.

EVOKE: Essa sina investigativa te persegue…

 

Fotos: Folhapress

 

 

 

Revista Evoke

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