É preciso saber ouvir…

Os homens públicos precisam aprender a ouvir mais

http://revistaevoke.com.br/wp-content/uploads/2017/07/revista-evoke-colunista-marcia-zarur.jpg
Marcia Zarur
Notícias, Olhar Brasilia
23/06/17 16:05

Conversar pode dar trabalho. Escutar alguém, especialmente se a opinião é muito diferente da sua, normalmente exige desprendimento, paciência e humildade. Qualidades raras hoje em dia. Em tempos de intolerância é mais fácil só ouvir quem concorda. Essa tem sido a regra do ‘samba de uma nota só’. Nas mesas de bar, no cafezinho do trabalho, nas redes sociais – o diálogo está desaparecendo. Ou é coro ou é briga!

 

A falta de habilidade em respeitar as diferenças não aparece apenas nas relações diárias, mas na postura de pessoas que ocupam cargos públicos e acreditam que podem tomar decisões sem ouvir. No caso de Brasília é ainda mais complicado. Temos uma cidade viva, crescendo rapidamente, mas que já nasceu como marco da arquitetura moderna e do planejamento urbano. A cidade é reconhecida como um bem de importância para toda a humanidade e tombada como patrimônio mundial pela UNESCO. É a maior área tombada do mundo, com 112,25km². O grande desafio é preservar, sem engessar; acompanhando as novas demandas dos moradores, sem descaracterizar o projeto original e sem perder qualidade de vida.

 

Um desafio imenso e que precisa contar com a participação de todos. A cidade é constantemente ameaçada pela gula da especulação imobiliária. Mas Brasília já tem os filhos da terra, moradores atuantes e comprometidos, que acompanham de perto as decisões do poder publico. Gente comum e técnicos altamente qualificados que juntos precisam ter voz nas decisões mais importantes. Democracia é isso! Para garantir direito à voz, oito entidades representativas publicaram um manifesto contra a portaria 166 do IPHAN, o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. A portaria, que trata da proteção do Conjunto Urbanístico de Brasília, é questionada em diversos aspectos na carta da sociedade civil, inclusive pelo fato de não ter havido “publicidade ou qualquer tipo de participação da comunidade no processo de elaboração da portaria – exigência constitucional”.

 

O manifesto conta com assinaturas de peso como a do Instituto Histórico e Geográfico do DF e da Casa de Lúcio Costa, além de diversos conselhos e associações Comunitárias. Na carta, as entidades alertam para “brechas” na portaria que podem descaracterizar muito o projeto original da cidade, colocando em risco as Unidades de Vizinhança e o uso apenas residencial para as casas das 700 na W3. A portaria do IPHAN abre também uma possibilidade de construção de prédios na área do Instituto Nacional de Meteorologia, hoje ocupada pelo cerrado e que, na visão de vários especialistas, poderia se tornar uma nova quadra do Setor Sudoeste, provocando impactos violentos no trânsito do Eixo Monumental, além de prejuízos incalculáveis para o meio ambiente.

 

Como diz a arquiteta Maria Elisa Costa, filha do inventor de Brasília, é preciso fazer mudanças com muito cuidado para que a cidade não se transforme “numa Esplanada cercada de Águas Claras por todos os lados”. E antes de tomar decisões que vão ter reflexos na vida de todos, os homens públicos precisam saber ouvir…

 

Márcia Zarur

Jornalista

Criadora do Olhar Brasília