Dormindo na caverna de gelo

Uma cobiçada trilha canadense

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Weimar Pettengil
Bem Estar, Esportes
02/05/18 16:48

Um paradoxo por excelência: deitar no gelo, para abrigar-se do frio. E confesso que a curiosidade não tinha avançado muito, de tão estúpida que parecia a proposta. Sorte não termos frio assim no Brasil.

Mas desembarquei no Canadá. E desde então, novidades chamam novidades.

Embora confirmado, tinha como certo não comparecer. A proposta era fazer uma das mais cobiçadas trilhas canadenses, o Joffre Lakes. Apenas 200 km separam o Joffre Lakes Provincial Park, administrado pela impecável BC Parks, de Vancouver. A região desperta ondas de turistas a cada verão, ansiosos por apreciar a beleza dos três lagos. A trilha nem é assim tão pesada, e pode ser vencida em poucas horas.

Mas o azul turquesa das águas do lago superior é de causar fortes emoções, garante quem já conhece. Aos pés de um glaciar (gelo eterno), cercado de picos magníficos, é um daqueles cartões postais inesquecíveis.

O problema é que estamos no inverno. E lá para as bandas de Pemberton, em dias agradáveis a temperatura fica próxima aos cinco graus, negativos. Neve também tem, mas é pouca: 2 ou 3 metros, apenas!

A preguiça e a vontade de economizar me fizeram recusar o convite. Só de pensar em comprar equipamento de camping exclusivo para o inverno, tinha calafrios. Até o grupo do Whatsapp soar, com um vídeo no Youtube e uma mensagem: se der errado, construímos um iglu.

Parei imediatamente o que estava fazendo e parti para uma das várias lojas especializadas em equipamentos outdoor onde, confesso, entro sem vontade de sair. Comprei o essencial por aproximadamente R$ 700: saco de dormir para -22°C, saco de bivaque, um isolante térmico, uma head lamp (lanterna de cabeça), e alguma comida. Além de alugar, por R$ 150, um par de snowshoes (para a neve) e outro de crampons (o grampo que se fixa nas botas para conseguir andar no gelo).

Deixamos Vancouver às 4h da madrugada, café da manhã em Squamish, e às 7h estávamos em Pemberton, o sol querendo nascer, pintando o céu de cores surreais. Muita neve, e eu quente por dentro, depois da dica de um dos novos amigos: saco para -10°C acho pouco. Lá no Joffre costuma fazer entre -20C° e -30°C!

De fato, quanto mais entrávamos no quintal do Canadá, mais paisagens surreais. Começamos a caminhada, e mesmo com pegadas à frente, atolávamos até 30cm na neve. E cruzar o primeiro lago congelado, na vida inteira, é um capítulo à parte.

 

*   Alguém sabe identificar quando é seguro atravessar um lago congelado?

*   Sim. Quando o da frente não afunda. Mas se ele não afundar, não é certeza que você não vá!

 

Preferi abstrair, e registrar o momento em fotos e vídeos.

Boquiaberto. Talvez traduza a você, no calor do verão brasileiro, as sensações que experimentei naquele dia. Gelo, neve, subida íngreme. A cada curva queria parar para fazer imagens. Um espetáculo difícil de traduzir.

Como já conhecia, então, lagos congelado, nem criei expectativas para o segundo. Mas quando ele chegou, foi difícil conter as lágrimas. Não sei dizer exatamente a razão. Mas a beleza do lugar, com alguns raios de sol que teimaram em rasgar as nuvens e clarear aquela imensidão branca. Engraçado a sensação a que me remete agora, revivendo o momento.

E depois do segundo lago, a cachoeira semi-congelada. Que lugar!

Mas nada disso me preparou para o terceiro lago. Um oceano plácido, protegido por colossos. O plano perfeito parece que esculpido. Sereno. Silêncio. Nunca ouvi silêncio mais absoluto. Já fui longe, e alto, para ter com Deus momentos únicos, mas nunca numa Catedral daquelas.

E quando conseguimos recobrar o fôlego – sim, impactou a todos – liguei a câmera, e o colega Gui Dwyer esticou o braço – será que vem na minha mão? Quase tremi nas bases quando o pássaro branco se aproximou. Que momento!

Mas porque facilitar, se podemos complicar?

Dormir aqui? Nesta margem? Não. Vamos atravessar o lago, e dormir no outro lado. Há uma pequena ilha, aposto que poucos já dormiram por lá. Ou, quem sabe, seremos os primeiros!

Fiz a foto para registrar, e passei a contemplar. Até que chegou minha vez de abrir caminho na neve fofa. Segui feliz, determinado, meio metro para dentro da neve, a cada passo. Até que o temido momento aconteceu.

Mas eu te conto na próxima edição, ok?

 

 

Revista Evoke

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